SpaceX quer fabricar suas próprias GPUs

A SpaceX incluiu “fabricar nossas próprias GPUs” na lista de “despesas de capital substanciais” do documento S-1 protocolado junto à SEC, a comissão de valores americanos, às vésperas de um IPO avaliado em US$ 1,75 trilhão. A frase ocupa uma linha no prospecto. O que ela significa ocupa anos de infraestrutura, bilhões em fábricas e uma aposta que a própria empresa admite que pode não dar certo no prazo.

O problema concreto é o seguinte: a SpaceX não tem contratos de longo prazo com boa parte dos seus fornecedores diretos de chips. Numa cadeia de abastecimento onde memória HBM já está em crise e onde a demanda por aceleradores de IA explodiu desde 2023, isso significa fila, e fila cara. A NVIDIA projeta os chips, mas quem fabrica é a TSMC, que gastou centenas de bilhões de dólares e décadas de refinamento para conseguir executar processos que exigem mais de mil etapas com precisão atômica. Não é algo que se replica em dezoito meses porque o valuation chegou a US$ 1,75 trilhão.

Daí vem o Terafab, o projeto de fábrica avançada de chips que Musk anunciou em março de 2026 para ser construída em Austin, com SpaceX e Tesla trabalhando juntas. O processo de fabricação previsto é o Intel 14A, que ainda não saiu do papel em escala comercial (a própria Intel ainda está validando o nó). Musk confirmou que os chips serão usados em carros, robôs e centros de dados orbitais, GPUs, especificamente, não foram mencionadas como foco da fábrica, embora o S-1 as liste como despesa. A inconsistência não é acidental: é o tipo de coisa que aparece num prospecto quando a empresa precisa sinalizar ambição para investidores sem garantir execução para reguladores.

O movimento não é isolado. Meta e OpenAI já desenvolvem chips próprios; Anthropic está no caminho. A lógica é a mesma: quem depende exclusivamente da NVIDIA para inferência e treinamento paga o que a NVIDIA cobra, e os valores são cada vez mais elevados. A SpaceX simplesmente tornou esse cálculo visível ao colocá-lo num documento legal. O que não estava no S-1 é o quanto essa dependência já custou.

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