Pais que jogaram videogame nos anos 80 e 90 têm mais vantagem na criação dos filhos, aponta estudo

Quem passou os anos 80 e 90 com um controle na mão e hoje tem filhos carrega algo que os próprios pais raramente percebem: uma forma de se relacionar com crianças que desafia o modelo de autoridade unidirecional.

O estudo da Universidade de Clemson, nos Estados Unidos, identificou que adultos que cresceram jogando videogame e mantêm esse hábito com os filhos promovem dinâmicas familiares mais abertas, com comunicação mais fluida e menos conflito do que o padrão observado em famílias onde o jogo é proibido ou ignorado. O jogador médio hoje tem 36 anos, o que coloca essa geração exatamente no cruzamento entre a infância com Super Nintendo e Mega Drive e a paternidade ativa.

O que muda quando pai e filho jogam juntos

Nas entrevistas colhidas pelo estudo de Clemson, um padrão se repetiu: ao sentar em frente à tela juntos, pai e filho trocam constantemente os papéis de quem sabe mais. Em um jogo de plataforma, a criança de 10 anos pode dominar uma mecânica que o pai de 38 ainda não entendeu, e essa inversão momentânea, longe de minar a autoridade parental, gera um tipo de confiança que conversas formais raramente produzem.

Os pesquisadores descrevem esse processo como uma hierarquia que não desaparece, mas se torna mais porosa, o que favorece o desenvolvimento emocional da criança e amplia os canais de comunicação entre as gerações. As conversas que começam dentro do jogo, segundo o estudo, costumam se estender para outros assuntos, estratégias de vida, gestão de frustração, tomada de decisão, de forma orgânica, sem o peso de uma “conversa séria”.

Por que essa geração específica

Adultos nascidos entre 1975 e 1990 cresceram com jogos que não tinham salvamento automático, não ofereciam tutoriais em vídeo e puniam o erro com a perda de tudo o que havia sido conquistado até ali. Essa estrutura de tentativa, falha e recomeço treinou tolerância à frustração de um jeito que os jogos atuais, com progressão constante e recompensa frequente, raramente replicam.

O economista Raj Chetty, da Universidade de Harvard, documentou em 2017 que a mobilidade social dos millennials caiu para 50%, contra 90% da geração anterior, o que significa que superar a renda dos pais virou uma probabilidade estatística, não uma certeza. Para essa geração que acumulou mais cobranças do que oportunidades, o videogame funcionou como o único ambiente onde as regras eram mantidas e o esforço gerava resultado mensurável, e essa experiência formativa agora aparece como competência parental.

Os próprios pesquisadores de Clemson apontam dois limites importantes no trabalho: famílias onde o videogame é fonte de conflito provavelmente não participaram da amostra, e a falta de tempo pode ser uma motivação paralela, pais ocupados que encontraram nos jogos uma forma prática de passar tempo com os filhos sem sair de casa. Isso não invalida os achados, mas impede que se atribua ao videogame uma causalidade direta sobre o bem-estar familiar.

O que o estudo observa com clareza é que famílias onde o jogo é incorporado sem culpa tendem a exibir dinâmicas mais democráticas, com crianças que relatam maior proximidade emocional com os pais e adultos que descrevem a experiência como genuinamente prazerosa, não apenas como obrigação parental disfarçada de tela.

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