A região com 152 mil hectares onde três biomas se encontram e a 2ª maior cachoeira do Brasil cai por 340 metros

No centro da Bahia, a Chapada Diamantina ergue paredões de arenito que separam o sertão da costa atlântica. A região abriga o parque nacional mais citado pelos brasileiros, segundo a pesquisa Parques do Brasil de 2024, e o vale considerado o melhor destino de trekking do país pela maior parte dos guias especializados.

A antiga capital mundial do diamante

A ocupação da região começou em 1844, com a corrida pelos diamantes. Garimpeiros chegaram em massa às margens do Rio das Lavras e formaram vilas como Lençóis, Mucugê, Andaraí e Igatu. O nome Lençóis veio das barracas brancas de lona espalhadas pelo alto da Serra do Sincorá, que pareciam lençóis estendidos ao sol.

Entre 1845 e 1871, Lençóis foi a maior produtora mundial de diamantes, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A cidade chegou a ter um vice-consulado da França para facilitar a exportação para a Europa. Em 1973, o conjunto arquitetônico de 570 imóveis foi tombado pelo IPHAN. O garimpo na região só foi oficialmente encerrado em 1994.

Como três biomas convivem no mesmo parque?

O Parque Nacional da Chapada Diamantina foi criado em 17 de setembro de 1985, pelo decreto federal 91.655, e protege 152.142 hectares da Serra do Sincorá. A administração fica a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com sede em Palmeiras.

Em uma só caminhada, o visitante atravessa Caatinga seca nas partes baixas, Cerrado em platôs intermediários e Mata Atlântica nas encostas mais úmidas. As altitudes variam entre 500 e 1.700 metros. O parque protege as nascentes do Rio Paraguaçu, responsável por parte do abastecimento de Salvador. Oito comunidades tradicionais vivem dentro da unidade e recebem visitantes em turismo de base comunitária.

Quais atrações não dá para perder na chapada?

São 38 trilhas catalogadas pelo ICMBio e 33 cachoeiras dentro do parque, além de dezenas em áreas privadas no entorno. Os atrativos se espalham por seis municípios baianos.

  • Cachoeira da Fumaça: com cerca de 340 metros de queda, é a segunda mais alta do Brasil. Em dias de vento forte, a água vira névoa antes de tocar o solo.
  • Morro do Pai Inácio: mirante a 1.120 metros de altitude com vista panorâmica de 360 graus e o pôr do sol mais famoso da região.
  • Poço Encantado: entre abril e setembro, um feixe de luz atravessa a gruta entre 10h e 13h30 e tinge a água de azul intenso.
  • Vale do Pati: considerado pela maior parte dos guias o melhor trekking do país, percorrido em três a cinco dias com pousadas em casas de moradores.
  • Gruta da Pratinha: flutuação em águas cristalinas dentro de uma caverna, complementada pela Gruta Azul ao lado.
  • Cachoeira do Buracão: cânion estreito com queda em forma de bota, acessada a partir de Ibicoara.

Qual cidade escolher como base?

Cada vilarejo atrai um perfil diferente de visitante. A escolha depende do tipo de passeio que se pretende fazer e do clima da cidade.

  • Lençóis: a mais estruturada, com pousadas em casarões coloniais tombados, agências, restaurantes e vida noturna. Porta de entrada mais comum.
  • Vale do Capão: vilarejo do município de Palmeiras, cercado por montanhas e com clima alternativo. Acesso direto à Cachoeira da Fumaça.
  • Mucugê: cidade histórica tombada pelo IPHAN, com cemitério bizantino e ar interiorano.
  • Igatu: distrito de Andaraí apelidado de Machu Picchu Baiana, com casas de pedra que sobreviveram ao garimpo.
  • Ibicoara: base para o sul da chapada, próxima ao Buracão e a paisagens menos turísticas.
  • Palmeiras: sede administrativa do parque, opção tranquila para quem quer fugir da agitação.

O sabor entre o sertão e a memória do garimpo

A cozinha local mistura tradições baianas e mineiras trazidas pelos garimpeiros no século XIX. Restaurantes em Lençóis e Vale do Capão concentram a oferta mais variada.

  • Godó de banana: prato típico de Lençóis, com banana-da-terra verde, carne seca e dendê.
  • Carne de sol com pirão: clássico sertanejo servido em quase todas as cantinas da chapada.
  • Moqueca baiana: presente nos cardápios em versões com peixe de rio e camarão de água doce.
  • Doces de fazenda: compotas de jaca, banana e mamão produzidas em pequenos engenhos do entorno.
  • Cerveja artesanal: microcervejarias no Vale do Capão exploram o uso de frutos do Cerrado e da Caatinga.

Qual a melhor época para visitar a chapada?

O clima é semiárido com características de altitude. As temperaturas costumam ser amenas e a melhor janela para visitar coincide com o período seco, que entrega trilhas firmes e céu aberto.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Lençóis. Condições podem variar.

Como chegar ao coração da Bahia?

De carro, o trajeto saindo de Salvador dura cerca de 6 horas pelas BR-324 e BR-242, em estrada asfaltada. São aproximadamente 420 km até Lençóis, base mais comum.

Ônibus diretos da Real Expresso partem da rodoviária de Salvador em três horários diários. O Aeroporto Coronel Horácio de Mattos, em Lençóis, recebe voos regulares da Azul a partir de Confins, Belo Horizonte, e voos eventuais de Salvador. A entrada no Parque Nacional é gratuita o ano todo.

Leia também: A Cidade da Uva no interior paulista: vinícolas centenárias e um dos maiores parques temáticos da América Latina a 75 km de São Paulo.

Suba a Serra do Sincorá e descubra a Chapada Diamantina

Poucos lugares no Brasil conseguem reunir cachoeiras de centenas de metros, grutas com efeito de luz natural, vilarejos coloniais tombados e travessias de vários dias por vales habitados por comunidades tradicionais. A região aproveitou a queda do diamante para virar referência mundial de ecoturismo.

Você precisa subir a Serra do Sincorá ao fim de uma tarde e ver o Morro do Pai Inácio dourar sob o sol para entender por que a Chapada Diamantina virou um dos destinos naturais mais procurados do país.

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