Steve Race subiu ao palco da primeira E3 da história, em junho de 1995, com uma missão absurdamente simples: falar uma palavra. Bom, um número. “299.” Deu meia volta e saiu, isso foi suficiente para mudar o rumo da geração.
O Sega Saturn tinha acabado de ser apresentado por US$ 399, com um detalhe importante já estava nas lojas, numa decisão de última hora que pegou vários varejistas de surpresa. A Sega do Japão ordenou a antecipação para chegar antes do PlayStation, mas distribuiu o console apenas para quatro redes varejistas específicas: Babbage’s, Electronics Boutique, Software Etc. e Toys ‘R’ Us. Os que ficaram de fora não ficaram nada felizes
A Sony entrou depois, e transformou o anúncio do preço do seu console em um momento icônico. Race era presidente da Sony Computer Entertainment of America e foi chamado para uma “breve apresentação”, e foi isso que ele entregou. Breve, mas emblemático.
US$ 299 em valores de hoje
Ajustada pela inflação americana, aqules US$ 299 em 1995 equivale a cerca de US$ 633 em abril de 2026, segundo o índice CPI do Bureau of Labor Statistics. No Brasil, o console chegou em outubro de 1995 por R$ 650, via importadores, já que a Sony não tinha distribuição oficial por aqui. Naquele momento, o salário mínimo era de R$ 100. Corrigido pelo IPCA até abril de 2026, R$ 650 seria equivalente a R$ 6.256.
Uma presença ilustre

Quem também estava presente naquela E3 foi nada mais, nada menos que Michael Jackson. Ele compareceu ao evento à convite Mickey Schulhof, então CEO da Sony. Quatro dias antes da E3, no dia 20 de junho de 1995, Jackson tinha lançado HIStory: Past, Present and Future, Book I, álbum duplo, o primeiro sem Quincy Jones depois de Off the Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987), e com o single Scream estrelado por ele e sua irmã, Janet Jackson, num clipe que custou US$ 7 milhões.
Katsuhiro Harada, criador de Tekken, mostrou em 2017 uma foto de Jackson jogando o game de luta num fliperama durante o evento, ao lado do próprio Schulhof e de Phil Harrison, da Sony Computer Entertainment Europe. O jornalista canadense Geoff Keighley relata que Jackson ainda jogou Ridge Racer e passou parte considerável do tempo na sorveteria do loca.
A agonia e o fim da SEGA no Hardware
Em 1998, a SEGA fechou o balanço com perdas de US$ 242 milhões, resultado direto do fracasso do console, e Bernie Stolar, ex-Sony, assumiu a divisão de hardware nos EUA com uma missão clara de virar a página, e esse novo e derradeiro capítulo da SEGA apostando em consoles, seria o Dreamcast.
Lançado no Japão em 27 de novembro de 1998 por 29 mil ienes (estoque esgotado no primeiro dia), chegou aos EUA em setembro de 1999 com 500 mil unidades vendidas nas duas primeiras semanas. O Dreamcast foi o primeiro console 128-bit com modem embutido, suporte a multiplayer online via SegaNet e um kit de desenvolvimento em parceria com a Microsoft que facilitava portabilidade de jogos de PC.
No Brasil, chegou em outubro de 1999 por R$ 799, sem modem, sem jogo incluso, equivalente a cerca de R$ 3.976 em valores de 2025. A concorrência direta era o PlayStation 1 pirata, amplamente acessível e com biblioteca estabelecida. Curiosamente, a pirataria no próprio Dreamcast acabou gerando um pico tardio de vendas no país, contrariando a crença inicial de que o formato GD-ROM era inviolável.
Mas a Sega do Japão (SOJ) já havia decidido encerrar o Dreamcast antes mesmo de o sucesso americano se confirmar, por causa do desempenho fraco em casa. Os 18 meses seguintes foram, nas palavras de Peter Moore, então presidente e COO da Sega of America, “fenomenais de dor, euforia e esperança”.
Em 31 de janeiro de 2001, Moore foi quem comunicou o encerramento: “de alguma forma coube a mim, não aos japoneses”, declarou. A empresa vendia entre 50 mil e 100 mil Dreamcasts por dia naquele período. Não era suficiente, o relatório fiscal apontou perdas extraordinárias de 80 bilhões de ienes (cerca de US$ 689 milhões) para descontinuar o hardware, com prejuízo líquido consolidado de 58,3 bilhões de ienes no exercício encerrado em março de 2001. Isao Okawa, então chairman da Sega, abriu mão de ações pessoais para cobrir parte do rombo. Até setembro de 2000, o Dreamcast tinha vendido 5,87 milhões de unidades no mundo, contra 79,6 milhões de PlayStations da Sony no mesmo período.
É triste refletir, mesmo 24 anos depois, o que poderia ter sido do Dreamcast. Estávamos realmente levando os jogadores para onde os jogos estavam indo. E, para constar, na minha humilde opinião, foi o trauma financeiro criado pelo desastre do Saturn que levou à queda do reinado da SEGA em hardware”, relembrou Peter Moore em 2023.
Em grande medida, a vitória da Sony sobre a SEGA ficou imortalizada naquele recorte do dia da E3, com o anúncio sucisto de Steve Race, mas a Sony “asfixiou” sua concorrente com elementos que iam muito além do custo do console nas lojas. Uma união entre hardware, biblioteca e parcerias estratégicas.



