À primeira vista, Unfamiliar parece seguir uma fórmula conhecida: ex-agentes secretos, passado mal resolvido, ameaça iminente e uma vida “normal” que nunca é tão normal assim. Mas a série da Netflix mostra logo nos primeiros episódios que seu interesse real não está apenas na espionagem e sim no desgaste emocional que ela deixa como herança.
A trama acompanha Simon e Meret, um casal que tentou abandonar o mundo da inteligência internacional para criar a filha longe do perigo. O problema é que, em Unfamiliar, o passado não bate à porta: ele arromba.
Espionagem sem glamour (e isso é um mérito)
Diferente de produções que romantizam a vida de agentes secretos, Unfamiliar aposta num tom mais seco, quase claustrofóbico. Não há gadgets chamativos nem grandes discursos heroicos. O suspense nasce do silêncio, das conversas interrompidas e da sensação constante de que ninguém, nem o próprio parceiro, é totalmente confiável.
Essa escolha funciona bem e aproxima a série de thrillers mais adultos como The Americans. Aqui, a espionagem é menos sobre salvar o mundo e mais sobre sobreviver às próprias escolhas.
O maior conflito não é externo
O ponto mais forte da série está no conflito conjugal. Simon e Meret não brigam apenas por decisões do passado, mas por versões diferentes da mesma história. A série é inteligente ao usar o casamento como metáfora: confiar em alguém que já mentiu por profissão é possível?
O roteiro entende que o verdadeiro risco não é o inimigo que persegue a família, mas aquilo que nunca foi dito dentro de casa. E é justamente quando Unfamiliar desacelera, focando em diálogos, olhares e pequenas tensões — que ela se torna mais potente.
Onde a série tropeça
Apesar da boa construção emocional, Unfamiliar às vezes escorrega no ritmo. Alguns episódios se alongam em subtramas que não entregam o mesmo impacto dramático, e certas resoluções parecem apressadas demais para uma série que aposta tanto na complexidade psicológica.
Além disso, quem espera grandes reviravoltas espetaculares pode se frustrar. A série prefere o desconforto prolongado ao choque imediato, o que pode dividir opiniões.
Vale a pena assistir?
Sim, especialmente se você gosta de thrillers que confiam mais nos personagens do que na ação. Unfamiliar não é uma série fácil, nem feita para consumo automático. Ela exige atenção, paciência e leitura emocional.
No fim, a pergunta que a série deixa não é “quem está nos observando?”, mas algo bem mais incômodo: até que ponto conhecemos quem dorme ao nosso lado?
Uma estreia sólida da Netflix para quem busca suspense com densidade e não apenas adrenalina.

