A União Europeia acaba de acionar o gatilho mais ambicioso da Digital Markets Act contra o Google: a empresa terá até julho do próximo ano para abrir o Android à concorrência no mercado de assistentes de inteligência artificial. A decisão, publicada pela Comissão Europeia, não é uma recomendação nem um aviso, é uma obrigação com prazo definido, e ela mexe diretamente na arquitetura estratégica que o Google construiu em torno do sistema operacional mais usado do planeta.
O que a UE está exigindo, na prática

O bloco europeu identificou um problema estrutural: o Android está presente em cerca de 60% dos smartphones vendidos na Europa, e essa posição dominante confere ao Gemini, assistente nativo do Google, uma vantagem de distribuição que nenhum concorrente consegue replicar de forma orgânica.
Para corrigir esse desequilíbrio, os reguladores determinaram um conjunto de mudanças concretas: acesso mais amplo de assistentes de IA rivais ao sistema operacional, incluindo a capacidade de usar comandos de voz e executar ações dentro de aplicativos; compartilhamento de dados anonimizados do mecanismo de busca com empresas concorrentes, inclusive desenvolvedoras de chatbots; e redução das barreiras técnicas impostas a desenvolvedores externos que queiram integrar seus serviços à plataforma.
Em outras palavras, a UE quer que um assistente de terceiros possa fazer no Android o que o Gemini faz hoje por padrão: acessar contexto do sistema, interagir com apps instalados e usar os dados de busca do Google como base de conhecimento. Não é pouca coisa.
O argumento do Google e os seus limites
O Google não aceitou a decisão em silêncio. Kent Walker, conselheiro-geral da empresa, afirmou em nota enviada ao The New York Times: “Hoje, as decisões colocam em risco importantes proteções de privacidade e segurança para milhões de europeus.” A empresa reforçou que dados armazenados nos dispositivos e o histórico de buscas dos usuários precisam de proteção contra acessos inadequados.
O argumento tem algum fundamento técnico, não pode ser ignorado completamente. Abrir APIs sensíveis do sistema para terceiros cria superfícies de ataque que hoje não existem, e a qualidade da implementação de segurança por parte de concorrentes menores é uma variável genuinamente imprevisível. Mas a União Europeia entende que a proteção da concorrência é prioritária, e que cabe ao Google construir as salvaguardas técnicas necessárias dentro das novas regras, não usar a segurança como argumento para manter o status quo. A empresa ainda não informou se pretende recorrer da decisão.
A Apple no mesmo cerco
O Google não está sozinho nessa pressão regulatória. Em junho, a Apple anunciou que adiaria novos recursos de IA da Siri na Europa por não conseguir chegar a um acordo com os reguladores do bloco. O padrão é o mesmo: as duas empresas que controlam os sistemas operacionais móveis dominantes estão sendo forçadas a abrir mão de vantagens estruturais que construíram durante anos de integração vertical. A diferença é que, no caso do Android, a decisão já tem um prazo e uma lista de exigências específicas.
Fonte: digital-markets
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