Todo verão, um pequeno vilarejo italiano parece uma pintura graças a uma leguminosa e encanta com paisagens únicas quase irreais

Do fim de maio ao começo de julho, um vilarejo pequeno da região de Úmbria, na Itália, se transforma num dos cenários mais fotografados do país. O responsável por essa mudança não é uma flor exótica nem um projeto turístico caro. É uma leguminosa comum de cozinha: a lentilha. A florada de Castelluccio se tornou símbolo de resiliência local e um dos espetáculos naturais mais impressionantes da Europa.

Por que essa vila italiana virou queridinha das redes sociais?

Basta abrir o Instagram entre junho e julho para topar com a imagem. Um vale amplo tomado por listras de cor, vermelho vivo das papoulas, amarelo das mostardas, azul de florzinhas silvestres, tudo cortando o verde do trigo em movimento com o vento. Fotógrafos, motociclistas e mochileiros do mundo inteiro peregrinam até lá justamente para ver isso ao vivo.

O nome do fenômeno em italiano é fioritura, ou florada em português. Ela acontece todo ano, em datas ligeiramente diferentes, dependendo das chuvas e das temperaturas. E, apesar do que muita gente pensa, quem organiza esse arco-íris natural não é a natureza sozinha. É uma tradição agrícola centenária.

Onde fica Castelluccio di Norcia e o que aconteceu com o vilarejo?

Castelluccio di Norcia fica a mais de 1.400 metros de altitude, no coração do Parque Nacional dos Montes Sibilinos. Já foi um dos vilarejos mais isolados dos Apeninos, com poucas dezenas de moradores fixos e vida ligada à agricultura de subsistência.

Em outubro de 2016, um terremoto forte destruiu boa parte do vilarejo. Hoje, apenas nove pessoas moram permanentemente por lá. As casas seguem em processo lento de reconstrução, e boa parte do comércio funciona em estruturas temporárias mais abaixo, na cidade vizinha de Norcia. Nesse cenário, a florada anual ganhou peso simbólico: virou expressão da resiliência de quem se recusa a abandonar o lugar.

Como uma simples plantação de lentilha produz esse arco-íris?

O truque não está na lentilha em si. Está no que ela permite. Os agricultores da região semeiam a leguminosa nas três planícies que cercam o vilarejo, chamadas Pian Grande, Pian Piccolo e Pian Perduto. A lentilha é uma planta baixa, que raramente passa dos 30 centímetros, e fixa nitrogênio no solo enquanto cresce.

Esses dois detalhes mudam tudo. As sequências de acontecimentos que produzem o espetáculo funcionam assim:

Como acompanhar a florada sem prejudicar o vilarejo?

O sucesso viral cobrou seu preço. Nos fins de semana mais movimentados, milhares de turistas chegam ao mesmo tempo, disputando ângulos para fotos e comprometendo a plantação delicada. Para preservar o ecossistema e a agricultura tradicional, a região passou a adotar regras específicas de acesso. Vale conferir o que dá para fazer e o que passou a ser proibido:

Leia também: A cidade projetada no século XVII para ser invadida pelo mar impressiona ao alagar de propósito.

O que mais o vilarejo oferece além do espetáculo visual?

A lentilha de Castelluccio não é atração só para os olhos. Ela é considerada uma das melhores do mundo, valorizada pela casca fina que se mantém intacta durante o cozimento e pelo sabor aveludado. Desde 1999, tem o selo europeu de Indicação Geográfica Protegida, que garante origem exclusiva do planalto. É base de sopas simples e acompanhamento tradicional das linguiças locais de Norcia.

Quem sobe até lá encontra mais que fotografia. Encontra uma comunidade que resiste. As nove pessoas que continuam morando permanentemente no vilarejo mantêm bares, pousadas rurais e lojinhas com produtos da região, muitas vezes em construções provisórias. Comprar direto delas, respeitar as trilhas e visitar fora dos fins de semana mais lotados é a forma prática de ajudar Castelluccio a atravessar mais um ano do que o terremoto começou a apagar em 2016.

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