Saberes tradicionais apontam caminhos para combate à crise ambiental

Os povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e periféricas apontam caminhos para a mitigação dos efeitos da crise climática e para a preservação da biodiversidade a partir das culturas tradicionais e participação social.

O tema foi discutido no painel “Saberes tradicionais e soluções climáticas”, na 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, realizada pelo Ministério da Cultura (MinC), no município de Aracruz (ES).

Especialistas e representantes dessas populações ressaltaram ainda a necessidade de investimentos para a manutenção e a disseminação dessas práticas culturais, muitas delas já reconhecidas como tecnologias sociais e ambientais.

Representante da comunidade tradicional de Fundo de Pasto Várzea Grande, na cidade de Oliveira dos Brejinhos (BA), Edvando Vieira afirma que os saberes das comunidades já oferecem respostas para as demandas dos territórios. 

“O que a gente precisa é garantir que esses conhecimentos sejam reconhecidos e que os recursos cheguem na ponta, fortalecendo quem já cuida do meio ambiente”, acrescentou.

Esses saberes abarcam práticas de cuidado, manejo sustentável dos recursos naturais e estratégias de resiliência, indicando possíveis soluções contra os efeitos da emergência climática, por exemplo.

“O MinC vem consolidando a política cultural ao ampliar esse conceito e incorporar conhecimentos ancestrais que, historicamente, promovem a sustentabilidade como dimensão essencial nas estratégias de ação climática”, afirmou Carla Craice, coordenadora de Temas Transversais da pasta.

Aracruz (ES), 20/05/2026 – Participantes da Teia Nacional dos Pontos de Cultura fazem visita à aldeia Tupinikim de Comboios como parte da programação do encontro, em Aracruz (ES). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Participantes da Teia Nacional dos Pontos de Cultura fazem visita à aldeia Tupinikim de Comboios como parte da programação do encontro, em Aracruz (ES). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil – Tomaz Silva/Agência Brasil

Saberes da Aldeia Comboios

Aracruz (ES), 21/05/2026 – O vice-presidente da Associação Tupinikim de Comboios, Hudson Coutinho durante visita à comunidade, evento faz parte da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, em Aracruz (ES). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O vice-presidente da Associação Tupinikim de Comboios, Hudson Coutinho, explicou os trabalhos desenvolvidos no território Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Também durante a programação da Teia, o Projeto Memória das Águas: Vivências Tupinikim na Aldeia Comboios mostrou aos visitantes ações de preservação ambiental e do modo de vida, além de conscientização com base nos saberes da comunidade. Cerca de 950 pessoas vivem ao longo dos 24 quilômetros da península onde está localizada a aldeia.

O vice-presidente da Associação Indígena Tupiniquim de Comboios (AITC), Hudson Coutinho, explicou que os trabalhos desenvolvidos no território tratam de questões como lixo, reflorestamento e preservação do manguezal.

“Esses já eram temas que os nossos ancestrais traziam. Eles nos ensinaram a cuidar do meio ambiente e a ter essa relação com ele, entendendo o quanto ele é importante para nos nutrir enquanto povo indígena, enquanto povo ancestral”, mencionou.

A Aldeia Comboios foi uma das comunidades diretamente afetadas pelo rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, em novembro de 2015, e sofre com os impactos causados pelo rejeito de mineração até hoje. 

Aracruz (ES), 21/05/2026 – O presidente da Associação Tupinikim de Comboios, Jocinaldo Coutinho durante visita à comunidade, evento faz parte da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, em Aracruz (ES). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O presidente da Associação Tupinikim de Comboios, Jocinaldo Coutinho durante visita à comunidade Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O cacique Jocinaldo Coutinho relatou que os prejuízos relacionados ao desastre se refletiram na impossibilidade de pesca, cata de mariscos e até em plantações no território.

“Fazer esse trabalho de conscientização, abrindo as portas da nossa aldeia, é parte do processo de reinvenção dos nossos fazeres, mas sem perder nossas tradições”, disse o cacique.

Segundo a diretora executiva da organização C de Cultura, Mariana Resegue, já se tem clareza sobre a importância desses saberes tradicionais e das comunidades nos territórios. No entanto, ela avalia que isso ainda não se reflete em institucionalização.

“Sem financiamento e sem governança, a gente corre o risco de estar apenas reproduzindo um discurso, sem garantir transformação concreta”, disse Mariana, que é também consultora do Programa Nacional de Cultura, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas.

 

*A equipe de reportagem viajou a convite do Ministério da Cultura.

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