O curling é um esporte de inverno coletivo praticado em uma pista de gelo retangular, onde duas equipes deslizam pedras de granito em direção a uma área alvo segmentada em quatro anéis concêntricos. Frequentemente descrito como “xadrez no gelo”, a modalidade exige um alto nível de estratégia, precisão física e trabalho em equipe. O objetivo central é posicionar as pedras o mais próximo possível do centro do alvo, denominado “casa” ou “house”, enquanto se protege as próprias posições ou se retira as pedras adversárias.
História e origem
A gênese do curling remonta à Escócia do final da Idade Média. As primeiras evidências físicas do esporte são as chamadas “Stirling Stones”, pedras datadas de 1511 e 1551, encontradas ao serem drenados lagos na região de Stirling e Dunblane. Além dos artefatos, pinturas do artista flamengo Pieter Bruegel, o Velho, retratam camponeses praticando uma atividade similar sobre lagoas congeladas em meados do século XVI, indicando a popularidade inicial do jogo na Europa do Norte.
A formalização das regras ocorreu no século XIX. O Grand Caledonian Curling Club, fundado em Edimburgo em 1838, foi responsável por padronizar os equipamentos e as normas de conduta, transformando o passatempo rural em um esporte organizado. O curling fez sua estreia olímpica nos primeiros Jogos de Inverno, em Chamonix (1924), mas foi retirado do programa oficial posteriormente, retornando apenas como esporte de demonstração em algumas edições. A reintegração definitiva ao programa olímpico ocorreu em Nagano, em 1998.
Regras e funcionamento técnico
Uma partida de curling é disputada entre duas equipes de quatro jogadores cada. O jogo é dividido em “ends” (semelhantes aos sets no tênis ou entradas no beisebol), geralmente dez em competições de alto nível. Em cada end, cada equipe lança oito pedras, alternadamente, totalizando 16 lançamentos.
A pista, ou “sheet”, possui aproximadamente 45 metros de comprimento e 5 metros de largura. A superfície do gelo não é lisa; ela recebe uma pulverização de gotículas de água que congelam instantaneamente, criando uma textura granulada conhecida como “pebble”. Essa textura é fundamental para a curvatura (o “curl”) da pedra.
A função da varrição
Uma das características mais distintivas e visualmente curiosas do esporte é o ato de varrer o gelo à frente da pedra em movimento. Entender por que os atletas varrem o gelo no curling exige uma análise física do atrito.
Quando os jogadores esfregam as vassouras vigorosamente no gelo, o atrito gera calor momentâneo. Esse calor derrete superficialmente a camada de “pebble”, criando uma película microscópica de água que lubrifica o caminho da pedra. Isso resulta em dois efeitos práticos decisivos:
- Manutenção da velocidade: A pedra desacelera menos, permitindo que ela percorra uma distância maior (entre 2 a 3 metros adicionais).
- Retificação da trajetória: A varrição reduz a curvatura natural da pedra, fazendo com que ela siga uma linha mais reta.
Portanto, os varredores não apenas limpam detritos, mas atuam ativamente no controle da distância e da direção do lançamento após a pedra já ter saído da mão do lançador.
Sistema de pontuação
Ao final de cada end, a contagem de pontos é realizada. Entender como funciona a pontuação do esporte é essencial para compreender a estratégia defensiva e ofensiva das equipes.
- Apenas uma equipe pontua por end.
- O ponto é concedido à equipe que possui a pedra mais próxima do centro da casa (o “botão”).
- Pontos adicionais são atribuídos para cada pedra subsequente da mesma equipe que esteja mais próxima do centro do que a pedra mais bem posicionada do adversário.
- Pedras que não estão dentro da casa (ou tocando a borda externa do anel maior) não contam para a pontuação.
A última pedra lançada em um end, chamada de “hammer”, oferece uma vantagem tática imensa, pois permite à equipe que a detém a chance final de alterar o placar ou anular a pontuação adversária.
Principais competições e potências
O cenário internacional do curling é dominado por nações com tradição em esportes de inverno. O Canadá é historicamente a maior potência, detendo o maior número de medalhas em campeonatos mundiais e Jogos Olímpicos.
Os principais torneios do circuito são:
- Jogos Olímpicos de Inverno: O ápice da modalidade, disputado nas categorias masculino, feminino e duplas mistas.
- Campeonato Mundial de Curling: Realizado anualmente, é o principal evento fora do ciclo olímpico.
- The Brier (Masculino) e Scotties Tournament of Hearts (Feminino): Campeonatos nacionais canadenses, considerados por muitos analistas tão competitivos quanto o próprio mundial, devido à profundidade de talento no país.
Além do Canadá, a Suécia (liderada frequentemente pelo skip Niklas Edin), a Escócia (que compete como Grã-Bretanha nas Olimpíadas), a Suíça e a Noruega formam a elite global, disputando regularmente os pódios.
Curiosidades e aspectos técnicos
O curling possui particularidades que o diferenciam de outros esportes de precisão.
- Granito de Ailsa Craig: Tradicionalmente, as melhores pedras de curling são fabricadas a partir de granito extraído exclusivamente da ilha de Ailsa Craig, na Escócia. Esse material possui baixa absorção de água, o que impede que a pedra rache com o congelamento e descongelamento repetido.
- O “Spirit of Curling”: O esporte é regido por um código de honra rigoroso. Não há árbitros monitorando cada lance ativamente; espera-se que os próprios jogadores declarem suas infrações (como tocar na pedra com a vassoura). Além disso, é tradição que a equipe vencedora pague uma bebida à equipe perdedora após a partida.
- Sapatos distintos: Os atletas usam sapatos com solas diferentes em cada pé. O pé de apoio (slider) possui uma sola de teflon para deslizar no gelo, enquanto o outro pé (gripper) possui uma sola de borracha para tração durante a varrição.
A relevância do curling reside na sua combinação única de habilidade atlética anaeróbica (na varrição) e complexidade cognitiva. Diferente de esportes de pura reação, o curling exige planejamento antecipado de múltiplas jogadas, gestão de risco e controle emocional absoluto, consolidando sua posição como uma das modalidades mais táticas dos esportes de inverno.

