Uma quadrilha especializada em golpes digitais foi desarticulada pela Polícia Civil de São Paulo na manhã de 24 de fevereiro de 2026. A Operação Fim da Fábula mobilizou cerca de 400 policiais, cumpriu 173 mandados judiciais e determinou o bloqueio de até R$ 100 milhões em contas bancárias — tudo isso para desmontar um esquema que combinava ligações falsas, acesso remoto a celulares e lavagem de dinheiro via fintechs e plataformas de apostas.
Um dos principais suspeitos, o funkeiro MC Negão Original, não foi localizado e é considerado foragido.
O que a Polícia Encontrou
Os números da operação dão a dimensão do esquema. Foram cumpridos 120 mandados de busca e apreensão e 53 de prisão temporária nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal.
A Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 100 milhões em cada uma das 86 contas identificadas. O Ministério Público ainda mapeou ao menos 36 imóveis registrados em nome de laranjas, além de centenas de veículos e embarcações usados para esconder o dinheiro obtido com os golpes.
Os Três Golpes Usados pela Quadrilha
Golpe do INSS: a ligação que parecia oficial
A vítima recebia uma ligação de alguém que se apresentava como funcionário da Previdência Social. O criminoso dizia que havia um problema com o benefício e que era necessário realizar uma transferência via Pix para regularizar a situação.
O número exibido na tela do celular parecia legítimo — os golpistas usavam técnicas de falsificação de identificador de chamadas para enganar as vítimas. Idosos aposentados eram os alvos principais.
Golpe do Falso Advogado: quando seus dados viram arma contra você
Esse é o golpe mais sofisticado do esquema — e o mais assustador para quem tem processos na Justiça.
Os criminosos monitoravam sistemas processuais eletrônicos públicos, como o PJe e o e-SAJ, em busca de processos com decisões favoráveis ou liberação de valores. Ao identificar uma vítima em potencial, entravam em contato se passando pelo advogado do caso — usando o nome real, o número de OAB e detalhes do processo para parecerem legítimos.
A mensagem seguia sempre o mesmo padrão: havia custas ou taxas a pagar para liberar o valor da decisão. A vítima, confiante por reconhecer os dados do seu próprio processo, realizava a transferência. Foram identificadas ao menos 66 vítimas só em São Paulo.
Golpe da Mão Fantasma: o criminoso dentro do seu celular
No golpe da mão fantasma, a vítima nem percebia que estava sendo roubada. Os criminosos induziam o download de aplicativos maliciosos — muitos deles divulgados por influenciadores digitais como plataformas de jogos — que na prática instalavam um programa de acesso remoto no celular.
Com esse acesso, os golpistas conseguiam operar o dispositivo à distância: abriam o aplicativo do banco, realizavam transferências e apagavam os rastros, tudo enquanto a vítima dormia ou estava ocupada com outra coisa.
Como o Dinheiro Sumia: a Engrenagem de Lavagem
Tão importante quanto entender os golpes é entender o que acontecia com o dinheiro depois. O esquema de lavagem seguia um roteiro bem definido:
O valor transferido pela vítima chegava imediatamente a contas abertas em fintechs — muitas delas criadas com documentos falsos ou de terceiros. De lá, era fragmentado em dezenas de pequenas transações para dificultar o rastreamento.
Parte dos recursos entrava em plataformas de apostas esportivas online, onde era convertida em créditos e sacada posteriormente como se fossem “prêmios” legítimos. O restante ia para imóveis, carros e embarcações registrados em nome de laranjas.
O resultado era um patrimônio milionário com aparência de origem lícita — e uma trilha financeira propositalmente embaralhada.
MC Negão Original: O Foragido do Caso
João Vitor Ribeiro, o MC Negão Original, é um dos nomes centrais da investigação. Com mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais, o funkeiro é suspeito de ter promovido os aplicativos maliciosos que serviam como porta de entrada para o acesso remoto nos celulares das vítimas.
Em suas redes, era comum exibir malotes de dinheiro, carros de luxo e viagens. A polícia tentou cumprir o mandado de prisão temporária contra ele, mas o artista não foi encontrado.
A defesa, representada pelo advogado Robson Cyrillo, afirmou que ainda não teve acesso aos autos e que o artista é pessoa idônea, garantindo que comprovará a origem lícita de todas as transações financeiras.
Por que Isso é um Problema Maior do que Parece
O ouvidor nacional de Justiça alertou que não se trata de casos isolados, mas de uma prática sistêmica que explora a confiança das pessoas no sistema judicial e na advocacia.
O problema central é que os criminosos usam informações públicas e legítimas — dados de processos, nomes de advogados reais, números de OAB — para tornar os golpes críveis. Quanto mais digitalizada fica a Justiça, maior é a superfície disponível para esse tipo de ataque.
OAB e CNJ já se pronunciaram sobre o tema, reconhecendo que o crescimento dos sistemas processuais eletrônicos abriu brechas que precisam ser endereçadas com urgência.
Como se Proteger
Esses golpes têm padrões identificáveis. Alguns sinais de alerta:
Desconfie de ligações não solicitadas de supostos funcionários do INSS, bancos ou advogados pedindo transferência via Pix — independentemente do número que aparece na tela.
Nunca instale aplicativos indicados por influenciadores sem verificar a reputação do app nas lojas oficiais e pesquisar sobre o desenvolvedor.
Se receber contato sobre um processo judicial, desligue e ligue diretamente para o número do escritório que você tem salvo — nunca use o contato que te enviaram.
Ative notificações de transações no seu banco para perceber movimentações suspeitas em tempo real.
Em caso de suspeita, registre boletim de ocorrência imediatamente e entre em contato com o banco para tentar reverter a transação.
A Operação Fim da Fábula escancarou como os golpes digitais evoluíram. Não se trata mais de e-mails com erros de português pedindo senha de banco. O esquema desarticulado em São Paulo usou dados públicos reais, aplicativos com aparência legítima, influenciadores com milhões de seguidores e uma infraestrutura financeira sofisticada para mover R$ 100 milhões.
O bloqueio dos valores e os mandados cumpridos representam um avanço importante. Mas enquanto as brechas que esse esquema explorou — nos sistemas processuais, nas fintechs e nas plataformas de bets — não forem fechadas, o modelo continuará sendo replicado.
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