O Brasil consome semicondutores em larga escala e produz uma fração mínima do que precisa. Em 2025, o produto mais importado pelo setor eletroeletrônico nacional foram os semicondutores, com US$ 5,99 bilhões desembolsados, e 45% desse valor saiu direto para a China, segundo balanço anual da Abinee. O déficit da balança comercial do setor fechou o ano em US$ 41,1 bilhões, 3% acima dos US$ 40 bilhões registrados em 2024. Ao mesmo tempo, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) estimou que mais de 85% dos chips consumidos no país são importados, e a meta do governo é dobrar a participação brasileira na cadeia global, de 1% para 2%, até 2033.
Foi nesse contexto que a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo decidiu testar um caminho diferente.
O que é a PocketFab
Inaugurada em janeiro de 2026 no InovaUSP, a PocketFab é uma fábrica de semicondutores modular com 150 m², projetada para ser portátil e reconfigurável, sem as megaestruturas de concreto que marcam a produção convencional de chips. O investimento para tirar a primeira unidade do papel foi de R$ 89 milhões, com a FIESP e o SENAI-SP como parceiros institucionais. O reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Júnior, afirmou que “a universidade tem o papel de liderar investimentos em áreas estruturais de pesquisa com impacto direto no desenvolvimento econômico e social”
A divisão de responsabilidades dentro do projeto é clara: a USP conduz o design dos chips, enquanto o SENAI-SP lidera a validação, a integração e a aplicação industrial, além da formação de técnicos e engenheiros. “Conhecendo a demanda da indústria, nós vamos poder otimizar os processos dos componentes que o Brasil precisa e componentes que eventualmente a gente vai exportar”, disse Wildon Cardoso, assessor tecnológico do SENAI-SP.
O que vai sair dali
A primeira unidade tem capacidade estimada de 10 milhões de chips por ano, e o conjunto das dez unidades planejadas deve chegar a 60 milhões anuais. O setor automotivo é o principal alvo imediato — a fábrica vai produzir chips para sistemas avançados de assistência ao motorista, além de sensores para manutenção preditiva, automação industrial e dispositivos médicos. Cada polo poderá empregar até 500 pessoas, entre engenheiros, projetistas, técnicos, pesquisadores e estagiários.
O coordenador do Centro de Inovação da USP, Marcelo Knörich Zuffo, define assim o modelo: “É uma fábrica modular, flexível, sustentável e não massiva, pensada para ser portátil e escalável”. Zuffo também cita os recursos que colocam o Brasil em posição viável para essa aposta: “Nós temos terra rara, nós temos materiais críticos, nós temos água, nós temos energia, nós temos demanda, nós temos talentos”.
Os dez polos e o próximo passo
O projeto prevê a replicação do modelo em outros nove locais pelo território nacional, mas ainda não há prazo definido para as inaugurações seguintes. A articulação com entidades setoriais já está em andamento: ANFAVEA (montadoras), ABIPLAST (plásticos) e ABINC (internet das coisas) participam das conversas sobre demanda e aplicação industrial. A lógica é que cada novo polo chegue onde a demanda surgir — não o contrário.



