Os próprios cientistas da OpenAI documentaram por escrito que não confiam em Sam Altman

Os dois ex-líderes técnicos mais importantes da OpenAI chegaram à mesma conclusão sobre Sam Altman, e tiveram o cuidado de registrá-la por escrito. Ilya Sutskever, ex-cientista-chefe da companhia, compilou cerca de 70 páginas de mensagens do Slack, documentos de RH e análises sobre o comportamento do CEO no outono de 2023. O primeiro item do memo era direto: “Sam exibe um padrão consistente de… mentiras”. Dario Amodei, que hoje comanda a Anthropic, manteve mais de 200 páginas de anotações pessoais durante seus anos na OpenAI e chegou a uma sentença sem ambiguidade: “O problema da OpenAI é o próprio Sam”.

Esses documentos estão no centro da investigação publicada pelos jornalistas Ronan Farrow e Andrew Marantz na The New Yorker, construída ao longo de 18 meses com mais de 100 entrevistas. Os repórteres também ouviram o próprio Altman por mais de doze sessões diretas, então não foi por falta de oportunidade para responder.

O que os memorandos dizem

O episódio que quebrou a confiança de Amodei tem data e local específicos. Durante as negociações do aporte de US$ 1 bilhão da Microsoft em junho de 2019, Amodei descobriu que uma cláusula que ele havia redigido, a “merge and assist” — que obrigaria a OpenAI a parar de competir e passar a auxiliar qualquer projeto de IA alinhado com segurança que chegasse primeiro à superinteligência — havia sido alterada para dar à Microsoft poder de veto sobre fusões. Quando confrontou Altman sobre uma disposição contratual específica, Altman negou que ela existisse enquanto Amodei a lia em voz alta.

Mira Murati, ex-diretora de tecnologia da OpenAI, descreveu o método de Altman com objetividade clínica: dizer o que for necessário para conseguir o que quer e, se não funcionar, minar e destruir a credibilidade de quem se opõe. Um membro do conselho citado pela The New Yorker, sem identificação, aponta que em Altman coexistem uma necessidade extrema de aprovação e uma indiferença quase socopática pelas consequências de enganar. Paul Graham, que recrutou Altman para liderar o Y Combinator, disse a colegas após a demissão de Altman: “Sam estava nos mentindo o tempo todo”.

O documento e o timing

No mesmo dia em que a reportagem circulou, a OpenAI publicou um documento de 13 páginas com propostas de política pública para a era da inteligência artificial. Assinado por Chris Lehane, chefe de assuntos globais da empresa, o texto propõe taxar lucros de IA e retornos de capital, criar um fundo público que daria aos cidadãos americanos participação automática nas empresas de IA, e inclui até US$ 100 mil em bolsas e 1 milhão de dólares em créditos de API para pesquisadores que queiram estudar as políticas da companhia. A coincidência de datas não passou despercebida: analistas e veículos especializados apontaram que o lançamento funciona como ruído que compete com a cobertura do perfil.

O documento reconhece abertamente que sistemas de IA podem escapar do controle humano e adverte que governos poderiam usar a tecnologia para minar democracias. O problema é que a investigação da The New Yorker documenta que Altman pressionou discretamente contra regulações rígidas que, em público, afirmava apoiar, e que quando criou estruturas internas que deveriam limitá-lo, as desmontou no momento de cumpri-las.

O vendedor e o discurso

The New Yorker descreve Altman como o maior vendedor de sua geração — e o perfil público dele corrobora o rótulo. Durante anos, seu discurso se concentrou nos riscos da IA e na OpenAI como o único ator capaz de gerenciá-los. Nos últimos meses, o tom mudou para um otimismo mais expansivo, com promessas de melhora na qualidade de vida global e propostas que a Fortune comparou a um programa eleitoral. Altman admitiu à The New Yorker ter sido evasivo diante de conflitos no passado, atribuindo as contradições ao ritmo acelerado do setor, mas sem tocar no conteúdo das acusações documentadas pelos próprios cientistas que construíram a empresa ao lado dele.

A OpenAI foi avaliada em US$ 300 bilhões na rodada de captação de março de 2025 e tem uma posição de liderança no mercado global de IA generativa. A tensão financeira da companhia — que queima bilhões por ano em infraestrutura — convive com um comando sobre o qual os dois maiores nomes técnicos de sua história deixaram registros formais de desconfiança antes de partir.

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