A venda da operação de telefonia fixa da Oi para a Método Telecom, por R$ 60,1 milhões, escancara uma contradição curiosa: o serviço perdeu relevância até para quem ainda paga por ele, mas continua sendo indispensável em partes do país. O negócio, que ainda depende de aprovação da Anatel e do Cade, surgiu de um processo judicial competitivo. A Método levou a melhor com pagamento à vista, superando a proposta parcelada da Sercomtel. Até a conclusão, a operação segue sob responsabilidade da Oi.
O valor chama atenção, e não é à toa. A telefonia fixa não é um ativo qualquer, foi o ponto de partida da Oi, sustentou sua expansão e conectou milhões de brasileiros por décadas. Hoje, muda de mãos por um preço que parece pequeno diante desse legado histórico, mas há um contexto que não pode ser ignorado. A Método não está comprando crescimento, está assumindo uma estrutura antiga, com base de clientes encolhendo e custos que não desaparecem junto com a demanda.
E o pacote vai muito além de linhas residenciais. Inclui infraestrutura de telecomunicações, interconexão entre operadoras, telefones públicos, suporte a números de emergência como 190 e 192, além da obrigação de manter o serviço em cerca de 7,4 mil localidades isoladas até 2028.
É aí que a história muda de escala, para o consumidor, o telefone fixo já virou passado. Para o Brasil ainda é uma peça crítica.
Um serviço que quase ninguém usa

A queda da telefonia fixa não é só percepção. Os números confirmam. Uma pesquisa de 2025 com quase 50 mil pessoas mostrou que 65% dos entrevistados não têm telefone fixo em casa. Entre os que têm, mais da metade simplesmente não usa. Outro dado é ainda mais revelador, quase um quarto mantém o serviço apenas porque ele vem junto no pacote de internet. Só 6% contrataram a linha fixa por escolha própria.
Na prática, muitos desses telefones existem apenas no contrato, é quase um “item cenográfico”. O número está lá, mas ninguém conecta aparelho, divulga ou sequer lembra qual é. Em alguns casos, nem vale a pena cancelar, porque o preço do pacote praticamente não muda.
Antes, a internet dependia da linha telefônica. Hoje, é o telefone fixo sobrevive como uma espécie de “extra” da banda larga, como diria o outro, um “plus a mais”.
O que está realmente sendo vendido
Reduzir a venda a uma base de clientes envelhecida é simplificar demais. A Método está assumindo uma rede que cumpre funções essenciais. Ela garante a comunicação entre operadoras, mantém serviços públicos funcionando e sustenta conexões em regiões onde alternativas ainda são frágeis.
Isso transforma a aquisição em algo maior que um negócio trivial. Por isso, a aprovação regulatória é crucial, a Anatel precisa garantir que a empresa consegue operar a rede, enquanto o Cade avalia os impactos no mercado.
Uma conta difícil de fechar
Existe um problema estrutural nessa história, a receita da telefonia fixa cai rapidamente. Mas os custos não acompanham essa queda. Infraestrutura, manutenção, energia, equipes técnicas, tudo continua existindo. E ainda há obrigações legais de cobertura.
O resultado disso é uma uma rede pensada para milhões precisa continuar operando para muito menos gente, muitas vezes em regiões pouco rentáveis, estamos diante de um paradoxo. Ela vale cada vez menos como produto, mas continua cara como infraestrutura.
O contraste: dois países dentro do mesmo Brasil
Nos grandes centros, o telefone fixo praticamente desapareceu, as ligações migraram para celulares e aplicativos, mas essa não é a realidade nacional.
Em áreas rurais e regiões com infraestrutura limitada, o cenário é outro. Sinal móvel instável, internet inconsistente e poucas alternativas confiáveis ainda fazem da telefonia tradicional uma rede relevante.
Isso não significa que todos usam telefone fixo nessas regiões. Significa que não dá para simplesmente desligar o sistema sem garantir substitutos equivalentes. Enquanto parte do país discute 5G e IA, outra ainda precisa garantir que uma chamada básica funcione.
Uma realidade que não é a nossa
A diferença fica evidente quando se olha para fora. Em junho , a Finlândia desligou a sua última grande rede de telefonia fixa baseada em cobre, operada pela Elisa, depois de quase 150 anos de serviço contínuo. A decisão foi possível porque o país já havia migrado a maior parte das conexões para fibra óptica e redes móveis, com apenas “alguns milhares” de clientes ainda dependentes da infraestrutura tradicional e sem novos contratos sendo vendidos há anos. Após o desligamento, restaram apenas pequenas operadoras locais oferecendo linhas fixas em escala limitada, enquanto a voz passou a ser transportada por redes digitais e soluções de banda larga, consolidando a substituição da antiga rede de cobre por plataformas modernas
No Brasil, a realidade é outra, o território é maior, mais desigual e com lacunas de cobertura que impedem uma transição rápida.
Nos EUA, o fixo encolheu nas casa, mas ainda é relevante nas empresas

Nos EUA, o telefone fixo também perdeu relevância nas residências, mas, no ambiente corporativo ele continua encontrando espaço, não mais como símbolo de uma tecnologia antiga, e sim como parte da infraestrutura de comunicação de hotéis, hospitais, escritórios, lojas e centrais de atendimento.
Nesse caso, o “fixo” já não significa necessariamente uma linha de cobre como a do passado. Muitas empresas migraram para sistemas digitais baseados em IP, que mantêm o aparelho físico na mesa ou no quarto do hotel, mas usam redes modernas para transportar voz, o que permite preservar funções práticas e exigências operacionais sem depender do modelo tradicional de telefonia.
Custo, conveniência e obrigação regulatória ajudam a explicar essa sobrevida. Segundo o Wall Street Journal, hotéis americanos ainda mantêm telefones em todos os quartos por razões de segurança, responsabilidade civil e atendimento ao hóspede, enquanto setores regulados, como o financeiro, continuam valorizando aparelhos dedicados para registrar, gravar e rastrear chamadas com mais controle
Isso mostra que o telefone fixo não desaparece da mesma forma em todos os lugares. Em parte do mercado americano, ele deixou de ser um produto de massa para virar uma ferramenta profissional de nicho, e justamente por isso ainda movimenta investimentos de empresas como Cisco e AT&T, em um mercado global de telefones IP.
O fim de uma era da Oi
A venda da telefonia fixa também encerra um ciclo que começa lá atrás, na reorganização do sistema Telebrás. Criada em 1998 a partir da Tele Norte Leste, a futura Oi nasceu como concessionária de telefonia fixa em 64% do território brasileiro, carregando a missão de ser a “tele do Brasil urbano e interiorano” em boa parte do país. Antes de adotar o nome Oi em 2002, a companhia operava sob as marcas Tele Norte Leste e Telemar, oferecendo telefonia fixa e, depois, banda larga com a marca Velox. A virada de imagem com a saudação “Oi” veio acompanhada de uma estratégia agressiva na telefonia móvel, com pioneirismo em GSM e campanhas de marketing de alto impacto, como o chip com ligações gratuitas aos finais de semana por décadas e a cruzada contra o bloqueio de aparelhos, que ajudaram a construir sua imagem perante ao público.
Ao longo dos anos 2000, a empresa consolidou esse papel ao integrar diferentes serviços embaixo de uma mesma marca: telefonia fixa, móvel, banda larga e TV por assinatura. A compra da Brasil Telecom entre 2008 e 2009, por cerca de R$ 5,8 bilhões, ampliou sua presença para todo o país e reforçou o projeto de uma operadora integrada com alcance nacional. A história, porém, avançou em outra direção. Entre aquisições complexas, dívidas crescentes e sucessivas reestruturações societárias, a companhia entrou em recuperação judicial em 2016, encarou um segundo processo em 2024 e passou a desmontar a estrutura que sustentava sua ambição original: vendeu a operação móvel para Claro, TIM e Vivo, separou a infraestrutura de fibra na V.tal e, agora, abre mão justamente da telefonia fixa que deu origem à marca.
Essa distância entre o auge e o momento atual aparece nos números. Em 2012, a Oi era avaliada em mais de R$ 20 bilhões; em 2020, a operação móvel foi vendida por R$ 16,5 bilhões; hoje, a rede fixa, que antes era a porta de entrada da empresa, é repassada por R$ 60,1 milhões.
Um sistema que não pode simplesmente acabar
O telefone fixo já perdeu a disputa pelo consumidor e Isso não vai mudar, o desafio agora é outro: como desligar essa tecnologia sem causar impacto real.
A transição precisa ser cuidadosa. Envolve garantir serviços públicos, atender regiões isoladas e evitar que responsabilidades caiam nas mãos erradas. Por isso, essa venda tem importância. Ela consolida aquela visão de que o fim de uma tecnologia não acontece de uma vez. Primeiro, ela perde relevância, depois, perde mercado, e ó muito depois sua infraestrutura deixa de existir.
No Brasil, estamos exatamente nesse meio do caminho. De um lado, milhões que já abandonaram o telefone fixo, so outro, uma rede que ainda sustenta serviços essenciais.
O telefone fixo pode até ter virado relíquia para quem está sempre em busca do novo e das tendências, mas, para parte do Brasil, ainda está longe de ser algo que pode ser substituído num estalar de dedos.



