Nem tijolo, nem bloco: o material feito de garrafa PET que isola calor, abafa o barulho e já ergue casas inteiras no Brasil 

O material que começa na reciclagem e termina na parede da sua casa

Uma garrafa de dois litros descartada nos igarapés de Manaus virou ponto de partida para uma das inovações mais práticas da construção sustentável brasileira. O tijolo de garrafa PET, desenvolvido pelo professor de física Newton Lima na ULBRA Manaus, combina argamassa com garrafas plásticas e entrega um bloco que supera o convencional em resistência, custo e desempenho térmico. Os números publicados pelo Jornal do Commercio de Manaus são diretos: 82% mais resistente que o tijolo tradicional e obra com metro cúbico três vezes mais barato.

Por que a garrafa PET isola calor e barulho tão bem?

O segredo está no ar. Quando a garrafa é fechada com a tampa e incorporada à argamassa, ela cria uma câmara de ar selada dentro do tijolo. Esse bolsão funciona como barreira natural contra a troca de calor e contra a propagação do som. Segundo a FAPEAM, é justamente a presença do ar confinado que permite à parede fazer o isolamento térmico e acústico do ambiente, sem necessidade de produtos adicionais.

A pesquisa da Tetracon confirmou o efeito em escala: blocos com PET triturado apresentam capacidade de isolamento térmico cinco vezes maior que os blocos convencionais. No prédio residencial Arbo Cabral, em Curitiba, a incorporadora MDGP usou 85 mil garrafas PET para produzir as mantas de isolamento de toda a edificação. O material não absorve umidade, não prolifera fungos e pode ser reciclado novamente ao final da obra.

Qual é o desempenho estrutural comparado ao tijolo comum?

A surpresa está na resistência. O PET possui alta resistência mecânica, química e à compressão, além de capacidade isolante superior à dos tijolos convencionais, conforme aponta o CREA-AL. Nos ensaios do CONICET, o tijolo ecológico com PET atingiu 1,94 MPa de resistência à flexão, contra 1,10 MPa do tijolo comum. Mesmo economizando 40% de argamassa, o bloco supera as exigências da ABNT.

No Brasil, o projetista Antônio Duarte Gomes, do Rio Grande do Norte, já construiu 40 casas e um prédio de quatro andares em Petrolina usando exclusivamente garrafas PET. A edificação exigiu 60 mil garrafas. Para uma casa popular de 50 m², bastam cerca de 8.500 unidades. Os três formatos de aplicação mais usados hoje têm características distintas e atendem a perfis de obra diferentes:

Três formas de construir com PET

Cada formato atende a um tipo de obra e nível de execução

Tijolo com garrafa inteira

Como é feito: garrafa inteira com tampa inserida em fôrma de argamassa (34 × 14 cm).
Destaque: câmara de ar garante isolamento térmico e acústico natural. Dispensa reboco.

Garrafa preenchida com areia

Como é feito: garrafa cheia de areia compactada, assentada na horizontal com cal e cimento.
Destaque: maior resistência estrutural. Modelo mais usado em obras populares na América Latina.

PET triturado como areia

Como é feito: garrafa moída substitui a areia na argamassa de blocos e pavers.
Destaque: isolamento térmico cinco vezes maior que o bloco convencional. Ideal para projetos comerciais.

Quais são os limites reais desse material na construção?

O tijolo PET não é perfeito, e conhecer as limitações evita surpresas na obra. O assentamento é mais lento do que o da alvenaria convencional: as paredes precisam ser erguidas aos poucos para garantir a cura correta da argamassa. As instalações elétricas e hidráulicas ficam mais práticas quando são deixadas aparentes ou planejadas antes do fechamento da parede. O corte do bloco exige serra manual de PVC ou equipamento tipo makita, não a colher do pedreiro.

  • Assentamento mais lento que alvenaria convencional: planejamento de cronograma é essencial.
  • Instalações elétricas e hidráulicas recomendadas aparentes ou planejadas antecipadamente.
  • Corte exige ferramenta específica (serra para PVC), não o corte manual padrão.
  • Manutenção periódica do barro de fixação em construções artesanais, como em qualquer alvenaria com argamassa à base de terra.

Esse material já chegou a projetos maiores no Brasil?

Chegou, e há muito tempo. A pesquisa da Revista Pesquisa FAPESP documentou os ensaios de resistência e isolamento do tijolo PET, confirmando sua viabilidade para casas populares. O material hoje responde a dois problemas simultâneos: o déficit habitacional e o descarte plástico. Quem está pensando em usar o material, alguns números ajudam a dimensionar o projeto:

  • Uma casa popular de 50 m² exige cerca de 8.500 garrafas PET de dois litros.
  • O prédio de quatro andares em Petrolina consumiu 60 mil garrafas e ficou em pé com o modelo de garrafas vazias assentadas verticalmente.
  • O prédio Arbo Cabral em Curitiba usou 85 mil garrafas para o isolamento térmico e acústico de toda a edificação.
  • Cada paver fabricado com PET triturado retira em média 20 garrafas do meio ambiente, segundo o CONICET.

Para uma parede que não precisa de ar-condicionado para manter o ambiente fresco, a garrafa descartada é o começo da história.

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