A Meta perdeu 20 milhões de usuários ativos diários no primeiro trimestre de 2026, e a resposta da empresa foi aumentar em US$ 10 bilhões o orçamento de capital previsto para o ano. A aparente contradição define com clareza a aposta existencial que Mark Zuckerberg está fazendo em inteligência artificial: crescimento de receita agora financia a infraestrutura do futuro, mesmo que a base de usuários dê sinais de fadiga.
A queda foi registrada na métrica que a própria companhia batizou de Family daily active people, que agrega os usuários diários ativos do Facebook, Instagram, WhatsApp e Messenger em um único número. A Meta atribui o recuo a “interrupções de internet no Irã” e à restrição de acesso ao WhatsApp na Rússia, explicação que pode ser legítima, mas que se beneficia de uma arquitetura de dados conveniente: ao consolidar todas as plataformas em uma só estatística, a empresa torna impossível identificar qual delas está sangrando usuários de forma mais significativa. Quem quiser saber se o Facebook especificamente está perdendo tração entre adultos jovens, por exemplo, simplesmente não conseguirá extrair essa informação do relatório oficial.
A IA como âncora financeira: US$ 125-145 bilhões

A despeito da queda de usuários, o resultado financeiro em si é difícil de ignorar. A receita da Meta cresceu 33% na comparação anual, saltando de US$ 42,3 bilhões para US$ 56,3 bilhões, o ritmo mais acelerado desde 2021. Com esse caixa em mãos, a empresa elevou a projeção de despesas de capital para 2026 para uma faixa de US$ 125 bilhões a US$ 145 bilhões, um incremento de US$ 10 bilhões em relação às estimativas anteriores. A diretora financeira Susan Li foi direta na call com investidores ao justificar o reajuste: a Meta havia “subestimado a demanda por compute no passado”. Em outras palavras, os data centers que alimentam os modelos de IA da empresa ficaram pequenos antes do previsto, um problema de escala que agora custa bilhões para corrigir, pressionado ainda por preços mais altos de componentes.
A divisão responsável por dispositivos de realidade virtual e vestíveis registrou prejuízo operacional de US$ 4,03 bilhões no trimestre, e isso após duas rodadas de demissões que atingiram a equipe desde janeiro. O Reality Labs segue sendo o elefante na sala dos balanços da Meta: uma aposta de longo prazo que consome capital com uma consistência que já seria insustentável em qualquer empresa sem a geração de receita publicitária da empresa. O fato de a divisão continuar a demitir enquanto sangra mais de US$ 4 bilhões por trimestre sugere uma reavaliação silenciosa de escopo, menos metaverso amplo, mais foco em hardware específico como óculos inteligentes.
A bolsa não comprou o argumento
Apesar do crescimento de receita recorde desde 2021, o mercado reagiu com ceticismo: as ações da Meta caíam mais de 7% no momento em que o relatório foi publicado. O sinal é claro, investidores estão pesando a perda de usuários e a escalada de capex de forma mais severa do que o número de receita sugeriria. Quando uma big tech aumenta o orçamento de infraestrutura em US$ 10 bilhões e ainda perde usuários no mesmo trimestre, o mercado começa a calcular o prazo de retorno desse investimento , e a conta não é trivial.
Em 2026, a Meta está jogando um jogo de dois tempos simultâneos: monetizar com eficiência o que já tem, bilhões de usuários e uma máquina publicitária sem igual, enquanto aposta pesado que a IA embarcada em seus produtos será o diferencial que impedirá o esvaziamento das plataformas no médio prazo. O risco real não é financeiro no curto prazo; a receita resolve isso. O risco é estrutural: se a relevância do Facebook e do Instagram continuar erodindo entre as faixas etárias mais jovens, nenhum volume de capex em IA vai recriar o engajamento orgânico que fez essas plataformas dominantes. Para o mercado de tecnologia como um todo, a trajetória da Meta em 2026 é um teste de hipótese em escala real: inteligência artificial consegue segurar usuários que já estão saindo pela porta?



