A crise entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Congresso Nacional esvaziou a cerimônia de sanção da isenção do Imposto de Renda, realizada nesta quarta-feira (26). Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, não participaram do evento.
Em nota, a cúpula do Congresso buscou imprimir um tom de comunhão institucional, celebrando a isenção e a autonomia dos Poderes. Fora das redes sociais, porém, os presidentes das duas casas preferiram não aparecer ao lado de Lula, em mais um reflexo da escalada de tensão com o Planalto.
Ministros do governo minimizaram as ausências e exaltaram o papel do Legislativo na aprovação do projeto. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que “a ausência dos presidentes em nada ofusca a importante condução e o apoio que deram a esta matéria”.
A relação entre Lula e Davi Alcolumbre desandou após o presidente indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal, preterindo o senador Rodrigo Pacheco, nome defendido por Alcolumbre.
Em resposta, o presidente do Senado fez avançar uma pauta que pode ampliar o rombo fiscal estimado para 2026. O pacote, apelidado de “pauta-bomba”, acrescenta R$ 2 bilhões ao déficit previsto, elevando para R$ 32 bilhões o total de receitas extras que o governo precisa encontrar para fechar o orçamento.
Alcolumbre também deu um prazo curto para Messias ao marcar sua sabatina para 10 de dezembro: apenas duas semanas para convencer, ao menos, 41 senadores a aprovarem seu nome ao STF. A pressão fez o indicado antecipar sua rodada de conversas no Senado.
“Vou procurar todos os 81 senadores. Não existe senador de oposição ou de situação”, disse Messias.
O prazo apertado é mais um obstáculo num caminho que já era considerado difícil. Com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, o PL quer impor uma derrota significativa a Lula no Senado. Agora, a estratégia do Planalto é adiar o envio da comunicação oficial da indicação ao Congresso, o que atrasaria o calendário e daria mais tempo para Messias buscar votos.
Na Câmara, o conflito envolve o presidente da Casa, Hugo Motta, e o líder do PT, Lindbergh Farias. Além de divergências sobre a alta do IOF, a PEC da Blindagem e o projeto Antifacção, governistas reclamam da demora em punir deputados bolsonaristas do PL que estão no exterior; Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem.
Os três permanecem com seus mandatos e gastaram quase todo o limite mensal de verba de gabinete em outubro, que supera R$ 133 mil. Motta proibiu votos remotos do exterior sem missão oficial, mas aliados de Lula cobram a cassação dos mandatos.
Em meio ao desgaste com o Congresso, Lula decidiu antecipar projetos que podem aumentar a pressão sobre deputados e senadores às vésperas das eleições de 2026. Entre eles está o fim da jornada de trabalho 6 por 1.
“É algo em que vamos ter que avançar. Não podemos continuar com a mesma jornada de 1943. É impossível. Os métodos são outros, a inteligência foi aprimorada, e essa revolução digital mudou a lógica da produção”, disse o presidente, sob aplausos.
