Guerra por eletricistas: Data centers de IA atrasam a entrega de casas no Texas

Os data centers de IA estão travando uma guerra silenciosa contra construtoras residenciais no Texas, e quem está pagando a conta é quem espera a chave da própria casa. Segundo o The Texas Tribune, a corrida dos hyperscalers para erguer novos data centers no estado está sugando o mercado de trabalho de eletricistas a um ritmo que a construção civil simplesmente não consegue acompanhar. O resultado prático: obras residenciais estão demorando até dois meses a mais para ser concluídas.

O Texas vive uma pressão dupla em 2026. Mais de 2,6 milhões de pessoas migraram para o estado desde 2020, gerando uma demanda intensa por habitação. Ao mesmo tempo, centenas de projetos de data centers estão sendo construídos na mesma região. O problema é que ambos disputam exatamente o mesmo recurso: um pool de aproximadamente 71.000 eletricistas. Esses profissionais são indispensáveis em qualquer obra, seja uma casa ou um campus de servidores, pois instalações elétricas mal executadas são um risco crítico de segurança.

E é justamente aí que a assimetria financeira se torna cruel para o setor residencial. Scotty Wristen, dono da WE Electric em Abilene, Texas (a mesma cidade onde fica o primeiro data center do projeto Stargate), relatou ao The Texas Tribune que consegue pagar a seus trabalhadores no máximo US$ 20 por hora. Os data centers chegam a oferecer US$ 35 por hora, mais horas extras e benefícios adicionais. Não é difícil entender para onde os eletricistas estão migrando.

A disparidade salarial tem uma explicação estrutural. De acordo com a International Brotherhood of Electrical Workers, entre 45% e 70% do orçamento total de construção de um data center é destinado ao trabalho elétrico. A razão é direta: megawatts e gigawatts precisam ser captados da rede e distribuídos de forma segura por edifícios inteiros, pisos, salas e racks individuais de servidores. É um trabalho de altíssima especialização, e os hyperscalers têm o caixa para pagar por isso. Construtoras de casas populares, por sua vez, simplesmente não têm como competir nesse nível.

Uma crise com várias frentes abertas

O problema não se limita ao setor residencial. Um grupo de análise apontou que 40% dos canteiros de data centers de IA no país podem ter sofrido atrasos, apesar de muitos hyperscalers negarem isso. Metade dos projetos planejados enfrenta restrições na cadeia de suprimentos de energia. A escassez de mão de obra está pressionando os dois lados da equação.

E o horizonte não melhora no curto prazo. Estima-se que 20.000 eletricistas se aposentem anualmente nos Estados Unidos, o equivalente a cerca de um em cada três trabalhadores com idade entre 50 e 70 anos. Formar um substituto não é rápido: a licença exige anos de aprendizado e experiência. O Texas tentou aliviar o gargalo ao flexibilizar, no ano passado, os requisitos de licenciamento para profissionais vindos de Iowa, Alabama e Arkansas. Mas é cedo demais para saber se a medida terá impacto real no cenário atual.

O quadro geral é o de uma corrida armamentista travada com capital praticamente ilimitado. Os hyperscalers não têm intenção de desacelerar o ritmo de investimento, e o mercado de trabalho especializado está sendo esticado até o limite em chips, energia, infraestrutura e agora mão de obra. Para quem está esperando a entrega de uma obra residencial no Texas, o preço dessa corrida se mede em meses de espera a mais. Para o setor de tecnologia, o desafio agora é reconhecer que construir a infraestrutura da IA não acontece num vácuo: ela compete por recursos reais com o restante da economia, e os efeitos colaterais já estão batendo na porta de quem sequer tem relação com o universo de data centers.

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