Europa quer proibir as operadoras de instalarem roteadores chineses

A Comissão Europeia apresentou o segundo Regulamento de Cibersegurança, diretriz que determina a proibição da instalação de roteadores e terminais de rede óptica de marcas da China em residências e estabelecimentos comerciais. A regra atinge diretamente as fornecedoras Huawei e ZTE. O texto obriga as operadoras de telecomunicações a substituir a infraestrutura instalada no segmento final da rede de acesso, responsável pela conectividade dos usuários domésticos nas redes físicas, móveis e de satélite.

As teles têm um prazo máximo de 36 meses para concluir a substituição de todos os dispositivos do ecossistema chinês após a aprovação do projeto. Conforme dados publicados pelo portal Banda Ancha, companhias como Vodafone, Digi e Orange utilizam roteadores fabricados pela ZTE e precisarão remover o hardware da casa dos clientes. A operadora Telefónica mantém contratos para o fornecimento de roteadores domésticos com as marcas taiwanesas Askey e MitraStar, diminuindo o volume de trocas na última milha de conexão.

A substituição dos aparelhos vai além dos roteadores instalados na casa dos clientes. As operadoras serão obrigadas a trocar os equipamentos do núcleo central das redes de transmissão, setor em que a Huawei e a ZTE concentram quase a totalidade dos contratos de fornecimento na Europa. Essa remoção geral gera um impacto financeiro estimado na casa dos bilhões de euros para o caixa das empresas de telecomunicações.

Essa mudança compulsória enfrenta resistência política dentro do bloco europeu. O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, formalizou oposição ao veto contra os fabricantes chineses por considerar as empresas parceiras fundamentais na expansão das estações de rádio do 5G espanhol. Diante do impasse, a Comissão Europeia realiza auditorias complementares para medir o custo econômico definitivo desse bloqueio tecnológico antes de aplicar a decisão final.

A pressão dos fabricantes europeus e a divisão do mercado de roteadores

As operadoras rejeitam as exigências da Comissão Europeia, mas os fabricantes de hardware locais pressionam para ocupar o espaço dos concorrentes asiáticos. A Aliança para a Soberania na Tecnologia de Redes Europeias (SAFENet), associação fundada pelas empresas alemãs Fritz! e Devolo, emitiu uma declaração conjunta para exigir que os provedores de internet passem a adotar roteadores fabricados em território europeu. A justificativa técnica baseia-se no volume de tráfego de dados: as redes móveis concentram 7% do tráfego total de internet, enquanto os equipamentos domésticos processam mais de 90% das conexões da região.

Um estudo encomendado pela SAFENet mapeou a participação de mercado dos roteadores de acesso residencial no continente:

  • As marcas europeias (como Sagemcom, Vantiva, FRITZ!, Devolo, Lancom, Icotera, Mikrotik e Teltonika) lideram com 43% do mercado.

  • As fabricantes da China (incluindo ZTE, Xiaomi, Huawei, TP-Link, Tenda e Reyee) detêm 37% das instalações.

  • As empresas de Taiwan (como Sercomm, Arcadyan, Compal, Asus, D-Link e Zyxel) respondem por 16% do setor.

  • As marcas dos Estados Unidos (como Netgear, Amazon Eero, Cisco, Linksys, Ubiquiti, Belkin, Google e Starlink) ocupam os 4% restantes.

O relatório da aliança aponta riscos de segurança digital associados à dependência de equipamentos estrangeiros, citando a possibilidade de interceptação de dados e o recrutamento de aparelhos para redes de ataques virtuais (botnets). O documento indica que, em um eventual conflito internacional, vulnerabilidades poderiam ser injetadas remotamente por meio de atualizações rotineiras de firmware. Para conter o problema, a SAFENet exige a criação de uma rotulagem padrão e clara para que as operadoras informem aos clientes a origem do hardware, as dependências do código de programação e o cronograma de atualizações do roteador.

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