Rodrigo de Paula Morgado — conhecido pelo apelido de “CEO do Jeep” e apontado pela Polícia Federal como operador logístico‑financeiro do esquema, guardava no iCloud contratos, extratos e conversas que descreviam, passo a passo, o funcionamento interno da organização ligada à lavagem de R$ 1,63 bilhão. Foi esse material, acessado mediante ordem judicial, que deu origem à Operação Narco Fluxo, que resultou em 39 mandados de prisão cumpridos e dois funkeiros, dois influenciadores e dezenas de operadores financeiros detidos.
O arquivo
Morgado estava preso desde outubro de 2025, detido durante a Operação Narco Bet, ela própria um desdobramento da Operação Narco Vela, ambas focadas no tráfico internacional de cocaína pelo litoral de Santos e no esquema de lavagem ligado a esse tráfico. Ao aprofundar a análise dos dados do iCloud de Morgado obtidos nessa fase, o núcleo de inteligência da PF identificou algo além do já investigado: evidências de um grupo criminoso com “funcionamento próprio e independente”, dedicado à lavagem de dinheiro em escala ainda maior, com o total de movimentações investigadas chegando a R$ 1,63 bilhão. A partir dali, a investigação tomou um novo rumo.
O que o iCloud guardava?
O iCloud é o serviço de armazenamento em nuvem da Apple que sincroniza automaticamente dados de todos os dispositivos vinculados a uma mesma conta, fotos, vídeos, e-mails, notas, arquivos, contatos e backups completos do celular. Cada arquivo recebe registro automático de data, hora de criação e histórico de modificações, o que transforma a conta em algo próximo de um diário digital involuntário do usuário.
Na conta de Morgado, os investigadores encontraram exatamente isso: conversas, extratos financeiros, comprovantes de transferência, contratos, registros de sociedade empresarial e procurações que descreviam o funcionamento interno da organização, incluindo a divisão de funções entre os responsáveis pela captação, circulação, guarda e redistribuição do dinheiro. Com esse material, a PF montou o que descreve nos autos como um “mapa” da quadrilha, identificando os vínculos entre operadores financeiros, empresas de fachada, artistas e influenciadores.
Por padrão, a Apple criptografa os dados armazenados no iCloud, mas mantém as chaves de acesso, o que significa que a empresa pode entregar o conteúdo à Justiça mediante ordem judicial, que foi o caminho utilizado pela PF. Existe uma modalidade mais restritiva, chamada Proteção de Dados Avançada, na qual as chaves ficam apenas nos dispositivos do usuário e nem a Apple consegue acessar o conteúdo, mas Morgado não a utilizava. Mesmo com essa proteção ativada, alguns dados, como metadados de e-mail e informações de calendário, ficam fora da blindagem máxima por questões de compatibilidade com servidores de terceiros.
Os presos

A operação mobilizou mais de 200 policiais federais com apoio da Polícia Militar de São Paulo e cumpriu 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária em nove estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Distrito Federal. MC Ryan SP foi detido em Bertioga (SP), e MC Poze do Rodo, no Rio de Janeiro. Os influenciadores Raphael Sousa Oliveira, responsável pelo perfil “Choquei” no X, e Chrys Dias também foram presos, assim como Débora Paixão, esposa de Chrys.
Segundo a PF, Raphael é investigado por suspeita de participação na lavagem de dinheiro, enquanto Chrys teria atuado na divulgação de rifas e sorteios de bens de alto valor e na promoção da imagem dos funkeiros presos.
O que dizem as defesas
A defesa de MC Ryan SP foi a mais ativa desde a prisão. O advogado Felipe Cassimiro, em entrevista na porta da sede da PF, afirmou que Ryan “respondeu todas as perguntas e se colocou à disposição” durante o interrogatório, e anunciou que a equipe vai apresentar “documentação fiscal e contábil, além de notas fiscais, para justificar qualquer transação”. Cassimiro questionou ainda a base do inquérito: “Qual é o esquema criminoso? Quando você olha o mandado de prisão, não existe um crime antecedente”. Separadamente, a assessoria do cantor divulgou nota afirmando que todas as movimentações financeiras “são legais” e que a equipe já está “à disposição das autoridades para esclarecimentos”. A defesa recorreu ao STJ alegando excesso de prazo, com o argumento de que o inquérito foi aberto em maio de 2020 e segue sem desfecho.
A defesa de MC Poze do Rodo afirmou, em nota, que “desconhecia os autos ou teor do mandado de prisão” e que, com acesso ao processo, vai se manifestar na Justiça “para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos”. As defesas dos influenciadores Raphael Sousa Oliveira e Chrys Dias ainda não se pronunciaram publicamente.



