O papel do Presidente da República no Brasil é central para a manutenção da democracia e o funcionamento da máquina pública. Em um sistema presidencialista de caráter federativo, o ocupante deste cargo acumula duas funções distintas que, em regimes parlamentaristas, costumam ser separadas: a de Chefe de Estado e a de Chefe de Governo. Essa dualidade exige que o mandatário não apenas administre a política interna e a execução orçamentária, mas também represente a unidade nacional e a soberania do país perante a comunidade internacional.
A atuação presidencial é balizada pela Constituição Federal de 1988, que estabelece os limites do Poder Executivo. Embora detenha autoridade significativa, o presidente não governa de forma absoluta, estando sujeito ao sistema de freios e contrapesos (checks and balances) exercido pelos Poderes Legislativo e Judiciário. Compreender essa dinâmica é essencial para analisar a estabilidade política e a eficácia da gestão pública.
Quais são os poderes e deveres do presidente da república
Para entender a extensão do cargo, é fundamental analisar quais são os poderes e deveres do presidente da república conforme estipulado no artigo 84 da Constituição Federal. Como Chefe de Governo, o presidente é responsável pela administração superior federal, definindo diretrizes para áreas críticas como economia, saúde, educação e segurança pública. Já como Chefe de Estado, ele simboliza a nação e conduz as relações diplomáticas.
As principais atribuições privativas do cargo incluem:
- Direção da administração federal:
- Nomear e exonerar Ministros de Estado.
- Exercer, com o auxílio dos Ministros, a direção superior da administração federal.
- Processo legislativo:
- Iniciar o processo legislativo na forma e nos casos previstos na Constituição.
- Sancionar, promulgar e fazer publicar as leis, bem como expedir decretos e regulamentos para sua fiel execução.
- Vetar projetos de lei, total ou parcialmente.
- Editar medidas provisórias com força de lei em casos de relevância e urgência.
- Relações internacionais e defesa:
- Manter relações com Estados estrangeiros e acreditar seus representantes diplomáticos.
- Celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a referendo do Congresso Nacional.
- Exercer o comando supremo das Forças Armadas.
- Declarar guerra, no caso de agressão estrangeira, ou celebrar a paz, autorizado pelo Congresso Nacional.
- Gestão orçamentária:
- Enviar ao Congresso Nacional o plano plurianual, o projeto de lei de diretrizes orçamentárias e as propostas de orçamento.
- Prestar, anualmente, contas ao Congresso Nacional relativas ao exercício anterior.
Origem e evolução do presidencialismo
O presidencialismo como sistema de governo tem suas raízes modernas na Constituição dos Estados Unidos de 1787, criado como uma alternativa à monarquia, visando um executivo forte, porém eleito e temporário. No Brasil, a instituição da República e do presidencialismo ocorreu em 1889, consolidada na primeira Constituição republicana de 1891.
Historicamente, o cargo de presidente no Brasil passou por diversas transformações que refletiram os momentos de estabilidade e ruptura democrática:
- República Velha (1889-1930): Marcada pela “política dos governadores”, onde o poder presidencial era sustentado por oligarquias regionais.
- Era Vargas e Ditadura Militar: Períodos de centralização excessiva do poder no Executivo, com supressão de direitos políticos e enfraquecimento dos outros poderes.
- Redemocratização (1985-Presente): A Constituição de 1988 redefiniu o papel do presidente, fortalecendo as instituições democráticas e impondo limites claros para evitar o autoritarismo.
É importante notar que o Brasil experimentou um breve período parlamentarista (1961-1963), mas o presidencialismo foi reafirmado por plebiscito, consolidando a preferência nacional pela eleição direta do chefe do Executivo.
Funcionamento prático e o presidencialismo de coalizão
Na prática, o funcionamento do governo brasileiro é definido pelo conceito de “presidencialismo de coalizão”. Devido à fragmentação partidária no Congresso Nacional, é raro que o partido do presidente detenha a maioria absoluta das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Isso obriga o chefe do Executivo a formar alianças com diversos partidos para garantir a governabilidade.
Essa dinâmica influencia diretamente a capacidade do presidente de exercer seus deveres:
- Negociação política: O presidente deve negociar a aprovação de suas pautas legislativas e orçamentárias em troca de participação no governo (cargos em ministérios) ou emendas orçamentárias.
- Poder de agenda: Através de Medidas Provisórias e pedidos de urgência, o presidente consegue ditar o ritmo das votações no Congresso, embora o Legislativo tenha a palavra final.
- Controle judicial: O Supremo Tribunal Federal (STF) atua como guardião da Constituição, podendo anular atos do presidente ou decretos que violem preceitos constitucionais, garantindo que o poder Executivo não exorbite suas funções.
Importância institucional e impacto social
A figura do presidente exerce um impacto profundo na vida social e econômica do país. As decisões tomadas no âmbito do Poder Executivo Federal afetam desde a taxa de juros e a inflação até a qualidade dos serviços públicos prestados à população. A responsabilidade fiscal, por exemplo, é um dever intrínseco ao cargo, cuja negligência pode resultar em crises econômicas e, em casos extremos, em processos de impeachment por crime de responsabilidade.
Além da gestão técnica, o presidente tem um papel de liderança moral e política. Em momentos de crise, como pandemias ou desastres naturais, a sociedade espera do ocupante do cargo uma coordenação eficiente e uma comunicação clara. A estabilidade institucional depende, portanto, de um exercício da presidência que respeite a independência dos poderes e os direitos fundamentais dos cidadãos.
O cargo de Presidente da República, em suma, é a síntese da administração pública federal e da representação nacional. Suas prerrogativas são vastas, permitindo a condução dos rumos do país, mas são estritamente delimitadas pela lei para assegurar que o poder emane do povo e seja exercido em seu nome. O equilíbrio entre a capacidade de governar e a obediência às normas constitucionais é o pilar que sustenta a legitimidade do mandato e a saúde da democracia brasileira.



