A Apple vai colocar mais componentes americanos dentro de seus produtos, não transformar o iPhone em um produto fabricado nos Estados Unidos.
O novo acordo com a Broadcom, estimado em mais de US$ 30 bilhões, prevê a produção de mais de 15 bilhões de chips nos EUA e a expansão da fábrica da Broadcom em Fort Collins, no Colorado. O contrato vai até 2031 e inclui componentes de radiofrequência, como filtros FBAR, usados para ajudar iPhones e outros dispositivos a se conectarem a redes sem fio.
Esse é o ponto central: “chip feito nos EUA” não significa “iPhone feito nos EUA”.
Filtros FBAR são componentes pequenos, caros de dominar e invisíveis para o consumidor. Eles ficam no sistema de radiofrequência e ajudam o aparelho a separar sinais usados por 5G, Wi-Fi, Bluetooth e outras conexões. Sem eles, a experiência sem fio piora; com eles, a Apple ganha um componente crítico fabricado em solo americano sem precisar mover a montagem final do iPhone para lá.
A estratégia é incremental. Em vez de recriar toda a cadeia asiática, a Apple está montando uma camada americana dentro de uma cadeia global: chips, filtros, vidro, wafers, ímãs, encapsulamento e materiais especializados. O American Manufacturing Program, anunciado em 2025, inclui fornecedores como Corning, GlobalWafers, Texas Instruments, Samsung, GlobalFoundries, Amkor e Broadcom.
Isso ajuda a explicar por que o acordo é politicamente poderoso. Em maio de 2025, Donald Trump ameaçou tarifa de 25% sobre iPhones não fabricados nos Estados Unidos e criticou a expansão da produção na Índia. A Apple respondeu nos meses seguintes ampliando compromissos domésticos, mas sem prometer transferir a montagem final do iPhone para fábricas americanas.

A diferença é enorme. Fabricar componentes envolve processos industriais específicos. Fabricar semicondutores avançados exige foundries como a TSMC. Encapsular chips é outra etapa. Montar o iPhone é outra operação, dependente de escala, fornecedores próximos, logística e mão de obra treinada. A Apple está avançando nas primeiras camadas, não na última.
O acordo com a Broadcom também não é só teatro político. A fabricante continua sendo relevante para a Apple em componentes de radiofrequência, Wi-Fi, Bluetooth e silício customizado. A Broadcom informou à SEC que a parceria cobre o desenvolvimento e fornecimento de ASICs customizados para múltiplas gerações de produtos Apple até 2031.

O que a Apple ganha é uma defesa dupla. Para Washington, pode mostrar fábricas, empregos e contratos bilionários. Para sua cadeia de suprimentos, garante componentes difíceis de substituir. Para a Broadcom, o contrato preserva um cliente essencial, analistas citados pela Reuters estimam que a Apple represente cerca de 20% da receita anual da empresa.
O limite continua claro. O acordo não resolve a dependência de montagem na Ásia, nem transfere para os EUA a produção de telas, memória, boa parte dos módulos, fornecedores de montagem como Foxconn ou a infraestrutura industrial que sustenta o volume anual do iPhone. Estimativas de mercado sobre um iPhone montado integralmente nos EUA variam bastante, mas analistas da Wedbush citados em 2025 falaram em preço potencial de até US$ 3.500, justamente pela complexidade da cadeia.
A negociação da Apple com Trump envolve muitas camadas. Uma das estratégias da companhia é o que eles chamam de China+1, em que a Índia atua como um polo importante para a redução gradativa da dependência da China como o grande produtor do iPhone. No ano passado, o presidente dos EUA deixou claro que que toleraria a produção do aparelho na Índia, mas não o envio direto desses aparelhos para o mercado americano.
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Na tentativa de manter os ânimos controlados com Trump, a Apple confirmou em 2025 o aporte adicional de US$ 100 milhões em manufatura nos Estados Unidos, elevando seu compromisso total para US$ 600 bilhões ao longo dos próximos quatro anos.
Apple não está trazendo o iPhone de volta pra casa. Está escolhendo quais partes dele podem virar investimento americano mensurável sem desmontar a arquitetura industrial construída na Ásia.
O resultado é um produto cada vez mais global, com uma quantidade crescente de componentes americanos, suficiente para gerar manchetes, reduzir pressão política e fortalecer fornecedores estratégicos, mas insuficiente para chamar o iPhone de “feito nos EUA”.
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