Empresas trocam reajuste salarial dos funcionários por investimento em IA

Steve McMillan, CEO da Teradata, avisou aos 5.100 funcionários que não haveria aumento salarial. O dinheiro iria para outro lugar: modelos, infraestrutura e contratação ligada à inteligência artificial. A justificativa foi direta: a empresa precisava “ganhar no mercado com IA”.

Para parte dos funcionários, o corte foi concreto. Profissionais com mais de dez anos de casa, acostumados a reajustes anuais entre 2% e 4%, ficaram sem aumento. O pacote incluiu bônus por desempenho e ações, mas o salário base ficou congelado. A medida atingiu países sem obrigação legal de reajuste.

A Teradata não está sozinha. A consultoria TTEC suspendeu contribuições ao plano de aposentadoria nos Estados Unidos para financiar certificações e ferramentas de IA. As duas empresas tiveram queda de receita (5% no caso da Teradata e 3,2% na TTEC), mas a escolha de cortar benefícios não foi inevitável. Jennifer Moss, especialista em mercado de trabalho, disse ao Business Insider que havia alternativas: financiamento externo, corte em despesas operacionais ou redução de compensação da alta liderança.

Enquanto empresas redirecionam dinheiro, a promessa que sustentou esse movimento começa a falhar nos números. A ideia era simples: substituir custo humano por software. Só que a conta da IA está crescendo mais rápido que o esperado.

Tokens mais caros que salários: executivo da NVIDIA revela paradoxo financeiro da IA

Bryan Catanzaro, VP de Applied Deep Learning da NVIDIA, resumiu o problema em entrevista à Axios: “o custo do compute está muito além do custo dos funcionários”. Dentro do próprio time, engenheiros com salários entre US$192 mil e US$243 mil anuais operam projetos cujo gasto em tokens supera esse valor.

Esse tipo de operação não representa a média do mercado, mas expõe a direção dos custos. Em empresas com uso mais cotidiano, o orçamento também saiu do controle. O CTO do Uber disse que o orçamento anual de IA acabou em semanas

Os dados de eficiência não acompanham o investimento. Um estudo divulgado em fevereiro pelo National Bureau of Economic Research (NBER) indicou que mais de 80% das empresas que adotaram IA não registraram ganhos mensuráveis de produtividade. Ao mesmo tempo, uma pesquisa da Harvard Business Review associou o uso dessas ferramentas a aumento de burnout. Em vez de reduzir tarefas, a IA passou a transferir atividades que antes eram terceirizadas ou descartadas.

Em 2026, o setor de tecnologia soma cerca de 92 mil demissões. Parte dessas decisões foi justificada pelo investimento em IA. Só que cortar funcionários também custa caro. A Oracle reservou US$2,1 bilhões para cobrir indenizações após demitir 30 mil pessoas.

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