De cobaias a gêmeos digitais: como bilionários do Vale do Silício estão tentando hackear o envelhecimento

Nos últimos anos, uma tendência chamada “biohacking” tem ganhado força entre líderes empresariais e elites tecnológicas do Vale do Silício. Em vez de seguirem os procedimentos médicos convencionais, essas figuras poderosas estão usando seus próprios corpos para experimentar métodos antienvelhecimento extremamente arriscados e sem comprovação científica.

No dia 25 de janeiro de 2025, Bryan Johnson, uma figura altamente influente nessa área publicou que resolveu encerrar o uso de rapamicina, após 5 anos. No mesmo post, ele listou os motivos: infecções de pele recorrentes, picos de glicemia, dislipidemia e frequência cardíaca em repouso anormalmente elevada. Os benefícios esperados da molécula não compensaram os efeitos colaterais.

Johnson é o rosto mais visível de uma tendência que circula entre elites tecnológicas do Vale do Silício: testar em si mesmo substâncias e procedimentos sem ensaios clínicos concluídos, na tentativa de desacelerar o envelhecimento. Em outubro de 2025, sua empresa Blueprint captou US$ 60 milhões, com aportes de Naval Ravikant, Balaji Srinivasan, os irmãos Winklevoss, Kim Kardashian, Logan Paul e Paris Hilton. O objetivo declarado é empacotar o protocolo de Johnson e torná-lo acessível ao público

Johnson não é caso isolado. Em dezembro de 2014, Peter Thiel declarou à Bloomberg TV que tomava hormônio do crescimento humano diariamente com o objetivo de viver até os 120 anos. A Clínica Mayo alerta que não há evidências científicas de que a substância restaure a juventude em adultos saudáveis e que seu uso fora de prescrição médica carrega riscos como diabetes e crescimento anormal de tecidos. Outros bilionários recorrem a azul de metileno, um corante industrial usado originalmente em laboratórios de química, ou a adesivos de nicotina para tentar manter foco cognitivo.

O método mais contestado do setor é a transfusão de plasma coletado de doadores jovens. A FDA emitiu um primeiro alerta em fevereiro de 2019 contra clínicas que comercializavam o procedimento para tratar Parkinson, Alzheimer e PTSD. Em dezembro de 2024, a agência reforçou o aviso, afirmando que não há benefício clínico comprovado e que os riscos incluem alergias graves e infecções. O protocolo de Johnson inclui variantes desse tipo de filtragem sanguínea

Faye Mythen, fundadora da clínica Reborne Longevity em Londres, descreve o fenômeno como “ensaios clínicos de Fase II obscuros”: medicamentos chegam ao público não por aprovação regulatória, mas pela influência de quem os testou em si mesmo. A consequência prática registrada por clínicas europeias é que pacientes chegam pedindo moléculas específicas sem ter feito exames básicos de sangue.

A corrida dos investimentos

Apesar das críticas, o setor recebe capital de origem corporativa. A Altos Labs, apoiada por Jeff Bezos e pelo bilionário russo-israelense Yuri Milner, angariou US$ 3 bilhões em 2022 para pesquisa em reprogramação celular, a técnica que tenta reverter o estado biológico de células adultas para um estágio mais jovem. A Merck investiu na Rejuvenate Bio, Sam Altman aportou capital na Retro Biosciences, e a Life Biosciences, fundada pelo pesquisador de Harvard David Sinclair, obteve aprovação da FDA para iniciar ensaios clínicos de Fase I. A Calico, subsidiária da Alphabet, mantém pesquisa de longo prazo sobre os mecanismos moleculares do envelhecimento. Ao todo, mais de US$ 5 bilhões foram investidos em projetos de longevidade nas últimas duas décadas.

Gêmeo Digital e medicina de dados

Bilionários chineses usam gêmeos digitais e IA para prever doenças com 10 anos de antecedência

Na China, um segmento da elite empresarial migrou o foco: o patrimônio deixou de ser a prioridade em favor do que chamam de “quitação de dívidas biológicas”. Em centros como Shenzhen e na ilha de Hainan, o conceito de Gêmeo Digital, antes restrito a simulações de engenharia em empresas como SpaceX, é aplicado ao corpo humano. Dados genéticos, exames de sangue e rotinas diárias alimentam um modelo virtual que projeta falhas sistêmicas com até 10 anos de antecedência.

Robin Li, fundador e CEO da Baidu, criou a BioMap, empresa de IA aplicada a ciências da vida que em 2026 pediu registro para IPO em Hong Kong. O modelo xTrimo da BioMap processa estruturas de proteínas e dinâmicas celulares para simular o efeito de medicamentos antes de qualquer teste em humanos. Nos Estados Unidos, a startup Q Bio opera a plataforma Gemini, que realiza varreduras corporais 3D por dezenas de milhares de dólares para detectar alterações em vasos sanguíneos de milímetros. Segundo dados da Siemens Healthineers em parceria com a Mayo Clinic, modelos cardíacos digitais permitem que médicos simulem cirurgias em um órgão virtual antes de qualquer intervenção real.

De acordo com estudo publicado na Nature Medicine em 2025, ferramentas de Gêmeo Digital permitem calcular o risco de declínio cognitivo aos 60 anos com base em marcadores de estresse presentes uma década antes. O objetivo documentado é transformar medicina reativa em preventiva: algoritmos identificam variações moleculares que precedem AVC ou diabetes antes que exames convencionais as capturem.

A previsão de Kurzweil

Ray Kurzweil, inventor e futurista que atuou como Diretor de Engenharia no Google, defende que a humanidade pode atingir imortalidade biológica por volta de 2030. A previsão se apoia na expectativa de que nanorrobôs, dispositivos na escala de micrômetros, circulem pela corrente sanguínea fazendo reparos celulares contínuos. Esses dispositivos também conectariam o cérebro a sistemas de nuvem, permitindo backup de memórias e comunicação direta entre mente e rede.

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