A expansão gradual do acesso ao aborto no Chile está em risco de uma reversão dramática, com o candidato da ultradireita José Antonio Kast, um católico fervoroso que se opõe até mesmo à contracepção de emergência, se aproximando de uma provável vitória no segundo turno presidencial em 14 de dezembro.
O aborto no Chile, que foi completamente banido durante a ditadura militar de 1973 a 1990, sob o comando do general Augusto Pinochet, foi parcialmente descriminalizado em 2017, quando passou a ser legal apenas em casos de risco para a vida da mulher, inviabilidade fetal e estupro.
Kast tem buscado não apenas bloquear uma proposta de flexibilização das restrições ao aborto apoiada pela administração de esquerda de Boric, que está saindo, mas também reverter as exceções existentes à proibição. Essas medidas marcariam o retrocesso mais acentuado do país em relação aos direitos reprodutivos em décadas.
O apoio amplo de outros blocos de direita deve garantir a Kast uma margem confortável no segundo turno, quando ele enfrentará a candidata da esquerda Jeannette Jara, apoiada pelo governo, que foi a mais votada no primeiro turno.
No entanto, as pesquisas mostram que a opinião pública apoia esmagadoramente a manutenção dos direitos ao aborto existentes.
Jara inicialmente disse que garantiria a legalização do aborto para todas as mulheres até 14 semanas de gestação, mas depois recuou e afirmou apenas que promoveria um debate para discutir essa legalização, diante da oposição de aliados da coalizão cristã.
Caso o Chile revogue os direitos ao aborto, o país se juntaria a uma série de governos que têm restringido o acesso ao procedimento na América Latina, onde apenas alguns países permitem o aborto.
Embora as sentenças de prisão por aborto sejam raras no Chile, ativistas afirmam que a criminalização empurra as mulheres para procedimentos clandestinos e uma economia do mercado negro florescente, que lucra com a venda de medicamentos não regulamentados e procedimentos arriscados.

