Aos 27 anos, jovem brasileira transforma caroço de açaí em tijolo sustentável e conquista reconhecimento pela invenção

No Pará, 96% do açaí vira descarte. Após a retirada da polpa, os caroços se acumulam em ruas e rios de cidades como Moju, a cem quilômetros de Belém. Francielly Rodrigues Barbosa, estudante de Engenharia de Produção da UFPA, criou um tijolo de caroço de açaí carbonizado com argila quando tinha 18 anos. Com mais de 25 prêmios na FEBRACE e em eventos internacionais, ela transformou o principal resíduo da fruta em material de construção com aplicação real para comunidades amazônicas.

Como funciona o tijolo feito de caroço de açaí?

O processo começa com a carbonização dos caroços, que viram carvão vegetal antes de serem misturados com argila. A mistura é prensada e seca sem queima em forno, reduzindo emissões de CO₂ em relação ao tijolo cerâmico.

O caroço de açaí tem composição fibrosa e alto teor de celulose que, quando carbonizado, contribui para uma estrutura mais leve e com menor condutividade térmica. Para comunidades ribeirinhas e rurais da Amazônia, que enfrentam altas temperaturas e têm acesso limitado a materiais de construção industrializados, um tijolo fabricado com resíduo local representa uma alternativa de menor custo e menor impacto logístico do que os blocos convencionais transportados de centros urbanos distantes.

Por que o caroço de açaí é um problema ambiental no Pará?

Segundo a Organização Mundial do Comércio, cerca de 90% de todo o açaí consumido no mundo é produzido no Pará. O volume de resíduo gerado é proporcional à escala da produção: apenas a polpa, que representa cerca de 4% do fruto, é aproveitada comercialmente. O caroço, que corresponde à maior parte do fruto, é descartado em grandes quantidades diariamente em municípios produtores como Moju, Igarapé-Miri e Abaetetuba. O acúmulo nos espaços públicos atrai vetores, contamina cursos d’água e contribui para a proliferação de doenças em áreas sem coleta de resíduos adequada. O problema é estrutural:

  • 96% do fruto vira descarte: apenas a polpa é aproveitada; o caroço e a casca são descartados sem destinação formal na maioria dos municípios
  • Demanda global crescente: o consumo de açaí cresceu nos últimos dez anos, ampliando o volume de resíduo gerado
  • Ausência de infraestrutura: municípios como Moju não têm aterros ou compostagem para absorver o volume de caroços
  • Contaminação hídrica: caroços em igarapés alteram a composição da água e prejudicam a fauna local

A soma desses fatores faz do caroço de açaí um dos resíduos com maior potencial de aproveitamento em volume e disponibilidade no Pará.

Que prêmios Francielly venceu e onde a pesquisa foi reconhecida?

A pesquisa acumulou mais de 25 prêmios nacionais e internacionais. A FEBRACE, realizada na USP, é a principal vitrine científica para estudantes no Brasil e credencia projetos para feiras no exterior. Conforme registra o portal Chico Rei, o projeto evoluiu de protótipo escolar para pesquisa de iniciação científica na UFPA com potencial de aplicação em habitações de interesse social.

O reconhecimento vai além dos troféus. A trajetória de Francielly é citada como referência na discussão sobre bioeconomia amazônica, campo que propõe o aproveitamento sustentável dos recursos biológicos regionais para gerar desenvolvimento econômico sem desmatamento. Transformar o principal resíduo da cadeia produtiva do açaí em insumo para a construção civil é exatamente o tipo de solução que essa agenda busca estimular.

O tijolo de açaí pode ser usado em construções reais ou ainda é só pesquisa?

O projeto de Francielly evoluiu de protótipo para pesquisa aplicada. Em Altamira, Geisiane Ferreira Ribeiro do Nascimento criou a Xingu Tijolos Sustentáveis, que já comercializa tijolos de caroço de açaí. O processo dispensa forno: os caroços são secos, triturados e prensados, gerando economia de até 40% em relação ao tijolo cerâmico convencional.

O caroço também é estudado pela Universidade da Amazônia para concreto permeável. A escala industrial depende de testes ABNT, mas os próximos passos já identificados pelos pesquisadores incluem:

  • Normatização técnica pela ABNT para uso em habitações de interesse social
  • Parcerias com construtoras para testes em larga escala em municípios do Pará
  • Aproveitamento do caroço em biocompósitos além do tijolo: painéis, pisos e revestimentos

O que o projeto de Francielly revela sobre inovação na Amazônia?

O tijolo de caroço de açaí condensa três questões centrais: aproveitamento de resíduos locais, soluções adaptadas à realidade amazônica e protagonismo de quem vive na região. Francielly não buscou resposta para um problema genérico: olhou para a rua onde cresceu, viu os caroços acumulados e foi buscar o que fazer com eles.

Uma jovem de escola pública acumulou mais de 25 prêmios com uma ideia nascida da observação do próprio entorno. A Amazônia não precisa só de políticas externas: precisa de condições para que quem vive nela crie as próprias soluções. O tijolo de açaí é um exemplo preciso de como isso pode acontecer.

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