Antes do sucesso de Toy Story, a Pixar tentou vender computadores caríssimos, e foi um fracasso; conheça a história do Pixar Image Computer

Antes de Toy Story, antes do Oscar, antes de se tornar o estúdio que redefiniu a animação em computação gráfica, a Pixar tentou sobreviver vendendo hardware. A tentativa durou quatro anos, custou dezenas de milhões de dólares e terminou com menos de 300 máquinas vendidas no mundo inteiro. Neste artigo vou contar essa história curiosa.

De divisão da Lucasfilm a empresa de Jobs

A história começa em 1979, quando George Lucas criou o Graphics Group dentro da Lucasfilm com o objetivo de levar alta tecnologia ao cinema. A divisão contava com especialistas em computação gráfica e, entre outros projetos, desenvolveu o Pixar Image Computer, usado pela própria Industrial Light & Magic para produzir animação computadorizada em diversas produções. Em 1984, o protótipo foi apresentado publicamente na conferência SIGGRAPH, a maior feira de computação gráfica da época, ao lado de uma versão parcialmente concluída de The Adventures of André & Wally B..

Em fevereiro de 1986, Steve Jobs comprou 57% do Graphics Group de Lucas, com os funcionários retendo os 43% restantes, e rebatizou a divisão de Pixar. O plano de Jobs era direto: enquanto a tecnologia ainda não permitia fazer longas-metragens animadas em computador, o hardware pagaria as contas da empresa. A máquina foi ao mercado comercialmente naquele mesmo mês.

O preço que afastou compradores


O Pixar Image Computer custava US$ 125.000 — o equivalente a cerca de US$ 370.000 em valores de 2026, ou aproximadamente R$ 1,85 milhão na cotação atual, e ainda exigia uma estação de trabalho Sun Microsystems ou Silicon Graphics separada para funcionar., já que o equipamento não tinha interface própria com o usuário. Os mercados-alvo eram médico, sísmico, de energia, federal e militar, pré-impressão gráfica, artes e TV. Era uma máquina pensada para laboratórios, agências de inteligência e grandes estúdios, não para o público final.

O primeiro cliente beta foi a TASC (The Analytic Sciences Corp.), empresa de Massachusetts que prestava serviços de pesquisa e desenvolvimento para agências governamentais americanas. Tom Stephenson, gerente do laboratório de IA da TASC, descreveu o equipamento como uma bancada de testes: a empresa ficou com a máquina por seis meses antes do lançamento e já havia encomendado duas unidades. A TASC usou o Pixar para modelar cobertura de nuvens para o Departamento de Defesa, gerando 300 frames de animação em um único buffer a 256×256 pixels de resolução, e também para simular o ônibus espacial com uma imagem completa da Terra, comprimindo os 48 bits por pixel originais para 12 bits, armazenando 80 imagens a 512×384 e re-expandindo tudo em tempo real.

O P-II e a tentativa de ampliar o mercado

Em 1987, a Pixar lançou a segunda geração do equipamento, o Pixar Image Computer II, chamado internamente de P-II. O preço caiu para US$ 30.000, uma redução expressiva, mas ainda longe do que seria necessário para vender em volume. O P-II usava um chassi menor, com quatro slots de expansão contra os doze do modelo original, e media 21″ x 17,5″ x 23,5″, pesando 63,5 kg.

Para tentar conquistar o setor médico, a Pixar doou dez unidades para hospitais e enviou equipes de marketing a convenções de medicina. O Dr. Robert Livingston, professor de neurociências da Universidade da Califórnia em San Diego, usava o equipamento para montar um atlas digital do cérebro humano, unindo cortes microscópicos em modelos 3D como parte de um programa nacional financiado pelo governo federal. “Não há dúvida de que o Pixar é o melhor sistema de exibição de imagens do seu tempo”, disse Livingston à Computer Graphics World em junho de 1986. Mas a adoção não cresceu: médicos não eram treinados para interpretar imagens tridimensionais e, por questões legais, precisavam continuar analisando os cortes individuais dos exames do modo tradicional. A Pixar chegou a fechar um contrato com um fabricante de tomógrafos, quem comprasse um equipamento de US$ 1 milhão levava o sistema 3D de US$ 30.000 de graça mas as vendas continuaram baixas. Em 1988, apenas 120 unidades haviam sido vendidas.

O PII-9 e a aposta no governo americano

Em 1988, a empresa desenvolveu o PII-9, uma versão com nove slots de expansão voltada para aplicações governamentais de processamento de imagens, mercado até então dominado por sistemas da indústria aeroespacial que custavam US$ 1 milhão por estação. O PII-9 foi acoplado ao que a Pixar descreve como o primeiro sistema RAID do mundo em escala comercial, com capacidade de 3 gigabytes, cujo conjunto de discos sozinho custava US$ 300.000. Na época, a maioria dos sistemas de arquivos nem conseguia endereçar mais de 2 GB de disco.

O processamento era feito por unidades chamadas CHAPs (Processadores de Canal), cada uma composta por quatro processadores AMD de 16 bits rodando a 10 MHz em arquitetura SIMD, executando a mesma instrução simultaneamente em quatro canais de cor: vermelho, verde, azul e transparência. Cada CHAP executava 40 MIPS, desempenho 200 vezes superior ao do DEC VAX-11/780, computador de referência na época. O governo americano considerou o PII-9 como base para um programa de implantação em larga escala, mas concluiu que o custo por estação ainda era alto demais e decidiu aguardar a próxima geração de equipamentos. Essa recusa foi o golpe final

O encerramento e o que sobrou

Em 25 de abril de 1990, Jobs encerrou a divisão de hardware da Pixar e vendeu a operação para a Vicom Systems, empresa de imagens sediada em Fremont, Califórnia, por US$ 2 milhões. Menos de 300 unidades do Pixar Image Computer haviam sido vendidas em quatro anos, e a Vicom entrou com pedido de proteção contra credores menos de um ano depois.

O encerramento aconteceu no mesmo período em que a NeXT, a outra empresa de Jobs, também enfrentava dificuldades para vender computadores. Em 1993, a NeXT abandonou o hardware, demitiu 330 dos 500 funcionários e passou a se concentrar em software, trajetória que culminou na venda da empresa para a Apple em 1996 e no retorno de Jobs ao comando da companhia.

Na Pixar, o que mudou o rumo foi o Oscar. Em 1989, o curta Tin Toy ganhou o prêmio de melhor animação em curta-metragem, e Jobs, que planejava encerrar também a divisão de animação por falta de rentabilidade, decidiu pelo caminho inverso: demitiu os engenheiros de hardware e apostou nos animadores. Seis anos depois, Toy Story estreou nos cinemas e a Pixar abriu capital na bolsa, tornando Jobs bilionário.

A Disney, uma das principais compradoras do Pixar Image Computer, usou as máquinas para desenvolver em parceria com a Pixar o sistema CAPS (Computer Animation Production System), que digitalizou os processos de tinta, pintura e pós-produção da animação tradicional do estúdio. O CAPS estreou em The Little Mermaid (1989), passou por Beauty and the BeastAladdin e O Rei Leão, e só foi desativado em 2004, com Home on the Range, quinze anos rodando sobre uma tecnologia cujo hardware de origem havia sido descontinuado em 1990. Em janeiro de 2006, a Disney concluiu a compra da Pixar por US$ 7,4 bilhões: a empresa que havia sido cliente das máquinas encerrou o ciclo comprando o estúdio que as fabricou, numa negociação que tornou Steve Jobs o maior acionista individual da Disney.

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