A “Machu Picchu Brasileira” virou uma vila fantasma ao cair de 9 mil para 400 moradores em poucos anos

Todo ano, Amarildo dos Santos registra em livros manuscritos quem nasceu, morreu, casou, chegou ou foi embora de Igatu. É ele quem sabe o número exato de habitantes da vila. Esses livros artesanais viraram souvenir disputado entre visitantes que sobem a serra para conhecer as ruínas de pedra da Machu Picchu Brasileira, no coração da Chapada Diamantina, na Bahia. No auge do garimpo de diamantes, o povoado reuniu mais de 9 mil moradores. Hoje, são cerca de 400.

Diamantes ergueram as paredes e depois esvaziaram as ruas

Por volta de 1844, garimpeiros vindos de Mucugê e de Minas Gerais chegaram à Serra do Sincorá em busca de diamantes e deram origem a Igatu, então chamada de Xique-Xique. Com abundância de arenito, casas, muros e até a igreja foram erguidos com blocos de pedra encaixados, muitos sem argamassa. Nos tempos de ouro, a vila teve cabarés, cassinos, cadeia, cartório e cinema.

O fim da escravatura, a concorrência dos diamantes sul-africanos e a invenção do diamante sintético esvaziaram o povoado ao longo do século XX. Na decadência, os próprios garimpeiros reviraram ruas inteiras em busca das últimas pedras, transformando quarteirões em ruínas. A atividade mineradora foi oficialmente encerrada na região em 1996. Em 2000, o IPHAN tombou o conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Igatu, protegendo cerca de 200 imóveis históricos.

O que visitar na vila de pedra da Chapada?

Igatu é distrito de Andaraí e fica a cerca de 800 metros de altitude. A vila inteira pode ser percorrida a pé em algumas horas, mas os arredores pedem pelo menos dois dias.

  • Ruínas da Cidade Fantasma: cerca de 7 km de construções abandonadas entre pedras, muros e vegetação. O bairro Luís dos Santos conserva um dos conjuntos mais impressionantes, com paredes encaixadas e janelas talhadas na rocha.
  • Galeria Arte & Memória: museu a céu aberto criado pelo artista Marcos Zacaríades, que aproveitou as ruínas para instalar esculturas, ferramentas de garimpo e um café-creperia entre muros centenários.
  • Igreja de São Sebastião: construída em pedra e cal por um garimpeiro que fez promessa para encontrar diamantes. Ao lado, um cemitério em estilo bizantino. Mais adiante, o Cemitério dos Bexiguentos, onde, segundo os mais antigos, chegaram a enterrar pessoas ainda vivas durante surtos de varíola.
  • Gruna do Brejo: antiga mina de diamantes adaptada para visitação, com galerias subterrâneas escavadas à mão e águas azuis que brotam do solo.
  • Rampa do Caim: mirante natural com vista para o Vale do Pati e o rio Paraguaçu. Um dos visuais mais amplos da Chapada Diamantina.

Outra visita marcante é à casa de Lindaura, filha de uma mulher de garimpeiro. Ela serve bolinhos de chuva com café e mostra álbuns de fotos e objetos do cotidiano de Igatu nos tempos do diamantes.

As ruínas de pedra e o legado do garimpo transformaram este distrito baiano num cenário cinematográfico. O vídeo é do canal Rolê Família, que conta com mais de 300 mil inscritos, e apresenta a história, trilhas e as famosas luzes de Igatu:

Cachoeiras de arenito rosa a poucos minutos da vila

Igatu é chamada de “berçário da Chapada” porque oferece trilhas curtas e acessíveis para cachoeiras que ficariam escondidas em qualquer outro destino.

  • Cachoeira dos Pombos: duas quedas a cerca de 1 km do centro. Trilha leve, ideal para famílias com crianças.
  • Cachoeira dos Cristais: descoberta pelo guia local João Taramba, com queda de 110 metros. Poços naturais perfeitos para banho.
  • Cachoeira da Califórnia: queda de 10 metros dentro de um cânion de arenito rosa. Trilha de 1,5 km com trechos técnicos.
  • Rio Coisa Boa: corta a vila e forma poços minerais para banho rápido entre uma visita e outra às ruínas.

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?

A altitude de 800 metros deixa as noites mais frescas que nas cidades baixas da Chapada. A chuva se concentra entre novembro e março.

Dica do especialista:

Temperaturas aproximadas com base em dados para Andaraí. Em Igatu, pela altitude, as mínimas podem ser alguns graus mais baixas.

Como chegar à vila de pedra?

Igatu é distrito de Andaraí, que fica a 430 km de Salvador pela BR-242. De Andaraí, são 14 km de subida por uma estrada de pedra construída pelos próprios garimpeiros no século XIX. Carros altos passam sem problema; carros baixos exigem cuidado. O aeroporto mais próximo é o de Lençóis, a cerca de 100 km. A partir de Lençóis, o trajeto até Andaraí leva aproximadamente 2h por estrada asfaltada.

Leia também: As 21 ilhas vulcânicas brasileiras no arquipélago onde golfinhos aparecem em 95% dos dias do ano.

Onde as pedras guardam a memória dos diamantes

Igatu é o que acontece quando uma cidade inteira é construída com o que a terra oferece e depois devolvida à terra quando a riqueza acaba. As ruínas não são destroços. São a prova de que garimpeiros ergueram uma civilização mineral com as próprias mãos, sem argamassa, sem arquiteto, sem nada além de pedra e ambição.

Você precisa subir a serra, caminhar pelas ruínas em silêncio e parar na casa de Amarildo para comprar um livro manuscrito. Nele, a história de Igatu cabe em poucas páginas, contadas por quem ainda conta, um a um, cada morador que fica.

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