A história do “all in-one compacto” de 20kg da Compaq que escondia um segredo curioso dentro da carcaça

Em 1996, a promessa da Compaq era tentadora: um computador doméstico definitivo, o Presario 4402. Por “apenas” US$ 1.999 (equivalente a mais de US$ 4.100 hoje), você levava para casa uma máquina “tudo em um”, sem a bagunça de fios e a complexidade de montagem dos PCs da época. Mas, como uma desmontagem recente revelou, a “integração” da Compaq era, na verdade, uma das gambiarras mais caras da história do hardware.

A promessa do computador “sem bagunça”

Em 1996, montar um computador em casa significava encaixar monitor, gabinete, caixas de som e modem externo num espaço geralmente escasso, ligando um cabo após o outro. A Compaq enxergou esse problema e respondeu com o Presario 4402: um bloco único de 16 polegadas de largura por 14,1 de profundidade e 15,2 de altura, pesando 19,5 kg, com tudo integrado numa só peça de plástico bege volumoso.

O aparelho chegou ao mercado com um Pentium rodando a 133 MHz num barramento de sistema a 66 MHz, acompanhado de 16 MB de RAM EDO de 60 ns (expansível até 128 MB), HD Caviar de 1,6 GB, drive de CD-ROM de 6x, disquete de 1,44 MB e um modem dial-up de 33,6 kbps para acessar o embrionário mundo da internet comercial. A tela era um tubo CRT de 15 polegadas (com área útil de imagem de 13,8 polegadas), e o som saía por caixas acústicas embutidas com qualidade de estéreo para os padrões da época. O sistema operacional pré-instalado era o Windows 95, acompanhado de um CD de recuperação rápida que permitia restaurar o computador ao estado de fábrica sem precisar de discos separados.

O pacote de programas incluía Microsoft Works para textos e planilhas, Netscape Navigator para navegar na web e a Enciclopédia Interativa Compton’s 1996 para consultas rápidas. Quem quisesse se conectar à internet escolhia entre três provedores: CompuServe, America Online ou GNN. No painel frontal havia botões dedicados ao controle do CD de áudio — era possível colocar um disco de música e ajustar o volume sem nem ligar o computador. O aparelho funcionava ainda como secretária eletrônica e viva-voz, e um controle remoto permitia operar algumas funções à distância.

O “tudo em um” que não era bem assim

Aqui mora a grande piada do produto. O canal Action Retro desmontou um exemplar em dezembro de 2025 e revelou o que a carcaça bege escondia: o monitor e o computador são completamente separados. Dentro da carcaça há um cabo VGA saindo do painel do monitor e indo direto para a porta VGA da placa-mãe, que provavelmente nem foi projetada exclusivamente para esse modelo. Há ainda cabos separados de áudio, microfone e alimentação elétrica para o display. Em resumo: trata-se de um monitor parafusado em cima de um desktop comum, embalados juntos e vendidos como integração.

Do ponto de vista prático, isso gerava uma limitação séria: se o monitor queimasse ou o usuário quisesse atualizar a tela, precisaria trocar o conjunto inteiro. Não havia como substituir só o display. A expansão interna, porém, era possível graças a uma placa riser com dois slots ISA e um slot PCI para adicionar itens como uma placa de vídeo melhor. E, já que o display era tecnicamente um periférico comum com entrada VGA, a parte computacional funcionava normalmente conectada a qualquer outro monitor do mercado — o que tornava a carcaça unificada mais uma decisão de marketing do que de engenharia.

John de Lancie guiando o usuário

Para dar um ar de sofisticação ao produto, a Compaq contratou ninguém menos que John de Lancie, o ator que interpretou o personagem “Q” em Star Trek. Todo comprador era recebido por um vídeo onde o ator garantia que o usuário tinha feito a “escolha certa” pela qualidade e confiabilidade da marca.

Curiosamente, em versões internacionais, o ator chegava a ser dublado, guiando o usuário pelos recursos da máquina, que incluíam uma “incrível” secretária eletrônica embutida e um modem de 33,6 kbps para navegar no então embrionário Netscape Navigator, que seria fulminado pela Microsoft anos depois na história guerra dos navegadores.

O Presario 4402 custava US$ 1.999 em 1996 num mercado onde máquinas comparáveis em desempenho eram vendidas sem monitor por preços semelhantes. A crítica especializada da época elogiou a proposta para estudantes em repúblicas universitárias ou famílias com pouco espaço, mas apontou como fraqueza central a impossibilidade de atualizar o monitor de forma independente. O aparelho pesava quase 20 kg, ocupava bastante espaço e a “integração” era, na prática, uma ilusão plástica: dois produtos separados colados numa carcaça comum. Mesmo assim, a Compaq repetiu a fórmula em modelos posteriores da linha Presario, como o 4700 com Pentium 200 MMX, o que indica que o produto vendeu bem o suficiente para justificar continuidade.

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