Cada vez que você pede a uma Inteligência Artificial generativa para escrever um e-mail ou criar uma imagem, um servidor no outro lado do mundo exige um pico colossal de energia para processar a tarefa e uma refrigeração industrial para não derreter. O problema é que a conta dessa infraestrutura não está a chegar apenas à mesa de Sam Altman ou de Mark Zuckerberg; ela já começou a aparecer no boleto de energia elétrica do cidadão comum.
A crise atingiu proporções tão alarmantes nos Estados Unidos que obrigou o governo federal a dar um golpe na mesa. Mas a reação do outro lado do oceano, na Europa, revela uma face muito mais sombria da corrida tecnológica.
A rebelião nos EUA: “aperto de mão” bilionário
Nos Estados Unidos, a paciência da população esgotou-se. Segundo dados federais, as tarifas residenciais de eletricidade subiram, em média, 6% em 2025. Cidadãos e legisladores rapidamente ligaram os pontos: o país tem atualmente cerca de 680 mega data centers planeados, uma infraestrutura que exigirá energia equivalente à produção de 186 grandes usinas nucleares.
A pressão pública, especialmente em anos de eleições legislativas (midterms), fez com que até mesmo estados tradicionalmente republicanos ameaçassem travar a construção dessas instalações. O cenário forçou a Casa Branca a agir.
Num movimento classificado como histórico, o presidente Donald Trump reuniu executivos de gigantes como Google, Microsoft, Meta, Amazon e OpenAI para assinar a “Promessa de Proteção ao Contribuinte”. O acordo prevê que as Big Techs assumam 100% dos custos para “construir, aportar ou comprar” a geração elétrica e as linhas de transmissão que os seus servidores necessitam, blindando a população de futuros aumentos.
Como resumiu o presidente na reunião, a indústria de IA estava a enfrentar uma grave “crise de relações públicas”, já que a população associou a chegada da tecnologia ao empobrecimento elétrico.
O estrago já está feito e é movido a carvão
Apesar da promessa corporativa, especialistas do setor de energia olham para o acordo com extrema cautela, classificando-o como um mero aperto de mãos voluntário sem força de lei, já que a jurisdição elétrica nos EUA é descentralizada.
E em alguns locais, a conta já foi repassada para o consumidor. Na rede PJM (que abrange 13 estados e abriga o maior cluster de data centers do mundo, na Virgínia), os custos de capacidade dispararam em absurdos US$ 23 bilhões. As tarifas recordes estão bloqueadas até 2028, tornando impossível aliviar o bolso da população a curto prazo.
Mais grave ainda é o impacto ambiental. A urgência do Vale do Silício é tão voraz que as fontes renováveis não dão conta. Para alimentar o “monstro” da IA, as companhias elétricas estão a ser forçadas a atrasar o fechamento de usinas a carvão altamente poluentes e a investir em gás natural, travando brutalmente a transição verde.
O paradoxo europeu: O povo paga a festa
Enquanto os EUA cobram o ingresso das Big Techs, a Europa, desesperada para não perder o comboio tecnológico, parece disposta a pagar a festa. O consumo de data centers na União Europeia, que rondou os 70 TWh em 2024, saltará para impressionantes 115 TWh até 2030.
A Espanha é o exemplo mais gritante deste choque de realidades. Enquanto a sua rede elétrica já sofre com apagões técnicos (como uma autoestrada saturada por “caminhões de tonelagem industrial”), o governo espanhol estendeu uma passadeira vermelha para as gigantes da tecnologia.
Para transformar o país na “nuvem” do sul da Europa, o Ministério da Indústria estuda classificar os data centers como “Consumidores Eletrointensivos”. Na prática, isso permite que corporações trilionárias recebam compensações milionárias e subsídios na sua fatura de luz.



