Poucas cidades brasileiras assumem oficialmente uma lenda como parte da própria identidade. No interior de São Paulo, Botucatu, se declara a casa do saci-pererê, assumindo o apelido de Capital do Saci e mantém uma associação nacional dedicada ao folclore desde os anos 1970. O nome da cidade, tirado do tupi Ybytu-katu, já entregava a promessa que a geografia confirmaria séculos depois: bons ares no topo da serra.
Por que Botucatu é chamada de Capital Nacional do Saci?
A cidade abriga a Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCS), entidade fundada pelo engenheiro José Oswaldo Guimarães para preservar a lenda do menino de uma perna só. Segundo a Assembleia Legislativa de São Paulo, a associação fomenta a tradição da criação de saci principalmente na região de Botucatu e existe há mais de quatro décadas.
A ligação virou lei. A Lei Estadual 11.669, de 13 de janeiro de 2004, instituiu o Dia do Saci em 31 de outubro, mesma data do Halloween, como forma de valorizar o folclore brasileiro. Moradores antigos ainda contam ter encontrado crinas de cavalos trançadas pela manhã, sinal da travessura do personagem de gorro vermelho, e a figura aparece hoje espalhada em murais, estátuas e comércios pela cidade.
O que a Cuesta tem a ver com os bons ares da cidade?
O apelido de terra dos bons ventos não é invenção de folder turístico, é geologia pura. Botucatu se ergue sobre a Cuesta Basáltica, formação de arenito e basalto que cria um degrau natural entre o planalto e a depressão periférica paulista. Conforme a Prefeitura de Botucatu, a região faz parte da província geomorfológica das Cuestas Basálticas, que se estende de Minas Gerais ao Rio Grande do Sul.
A altitude do município varia entre 756 e 920 metros, e essa diferença explica a ventilação constante que dá nome à cidade. As temperaturas costumam ficar entre 12°C e 29°C ao longo do ano, com invernos secos e amenos, verões abafados e madrugadas frescas mesmo nos meses de dezembro a fevereiro. Os morros testemunhos como Três Pedras, Morro do Peru e Morro do Macaco Molhado formam o cartão-postal da paisagem.
Como é a qualidade de vida no interior paulista?
Botucatu ocupa a 40ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros com melhor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em parceria com o Ipea e a Fundação João Pinheiro, o índice da cidade chega a 0,800, classificado como muito alto.
A presença da Universidade Estadual Paulista (UNESP), com um dos maiores campi do estado, injeta ritmo universitário na rotina e atrai estudantes de medicina, veterinária e agronomia de todo o país. O melhor indicador da cidade é a longevidade, com expectativa de vida acima da média nacional segundo o mesmo Atlas.
Como Botucatu virou referência em saúde no interior?
Poucos municípios do porte de Botucatu concentram tanta estrutura médica. O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB), ligado à UNESP e à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, é a maior instituição pública vinculada ao SUS na região.
O complexo tem cerca de 500 leitos, sendo 50 de UTI, e atende como referência 68 municípios do Departamento Regional de Saúde de Bauru. Segundo o próprio hospital, a abrangência populacional é de aproximadamente 2 milhões de pessoas, com quase 880 mil consultas ambulatoriais e mais de 10 mil cirurgias por ano. Para o morador, isso significa acesso a tratamentos de alta complexidade sem precisar viajar até a capital.
O que fazer nos fins de semana na cidade dos bons ventos?
A altitude entrega vistas que se estendem por dezenas de km e uma constelação de cachoeiras e mirantes a poucos minutos do centro. Vale reservar pelo menos dois dias para explorar as bordas da Cuesta e o bairro rural mais curioso do município.
- Morro de Rubião Júnior: morro testemunho a mais de 900 metros de altitude, com mirante, cascata e vista aberta da Cuesta a cinco km do centro.
- Pedra do Índio: mirante clássico na borda da serra, cartão-postal para o nascer do sol e ponto de partida para trilhas curtas.
- Gigante Adormecido: formação de morros que, vista de longe, lembra um homem deitado, com as Três Pedras formando os pés.
- Cachoeira da Marta: queda cercada de mata, com trilhas de acesso pela serra e piscinas naturais no verão.
- Museu de Mineralogia MAGMA: acervo com cristais, fósseis e meteoritos que ajuda a entender a formação da Cuesta Basáltica.
- Bairro Demétria: comunidade a dez km do centro, referência em agricultura orgânica e sede da Escola Aitiara.
O bairro que virou berço da agricultura biodinâmica no Brasil
A dez km do centro fica o endereço mais curioso da cidade. Foi ali que surgiu a Estância Demétria, primeira fazenda biodinâmica do Brasil, fundada em 1974 por um grupo de imigrantes ligados à antroposofia. A propriedade deu origem ao bairro que hoje leva o mesmo nome e concentra produtores orgânicos, ateliês, cafés e livrarias.
Conforme a Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica, a fazenda original chegou a reunir 30 hectares de verduras e 20 de ervas medicinais. Em 1984 nasceu a Escola Aitiara para atender filhos dos trabalhadores rurais, hoje referência nacional em pedagogia Waldorf, com nome de origem tupi.
Quando é a melhor época para visitar Botucatu?
O clima subtropical de altitude divide o ano entre um período seco e ameno e um verão mais quente e chuvoso. Entre abril e setembro, o tempo firme favorece trilhas, mirantes e passeios de longa duração.
aproveitar as cachoeiras pela manhã
explorar as trilhas e visitar os mirantes
aproveitar as feiras e os roteiros gastronômicos
praticar voo livre e curtir os mirantes da Cuesta
Dica do especialista:
aproveitar as cachoeiras pela manhã
explorar as trilhas e visitar os mirantes
aproveitar as feiras e os roteiros gastronômicos
praticar voo livre e curtir os mirantes da Cuesta
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Leia também: Pobres na Suíça vivem em “favelas” que parecem outro mundo e oferecem uma qualidade de vida acima da média global.
Como chegar a Botucatu saindo de São Paulo?
Botucatu fica a cerca de 235 km da capital paulista, viagem de aproximadamente três horas de carro pela Rodovia Castelo Branco (SP-280) ou pela Rodovia Marechal Rondon (SP-300). Ônibus intermunicipais partem regularmente do Terminal Rodoviário Tietê, e o aeroporto mais próximo com voos comerciais é o de Viracopos, em Campinas, a cerca de 135 km. Mais informações estão no site da Secretaria de Turismo de Botucatu.
A terra do saci e dos bons ventos
Botucatu junta o que é raro no interior paulista: ar limpo de serra, saúde de referência nacional e uma cultura que transforma um personagem folclórico em orgulho oficial. É uma cidade que cresce sem perder a calma, o folclore e o hábito de olhar para os próprios morros com curiosidade.
Você precisa subir a Cuesta e sentir os ventos bons de Botucatu, a única cidade que trata o menino de uma perna só como parte da família.



