A pequena vila mineira a 1.440 metros que nasceu de uma lenda do século XVIII e encanta nas montanhas da Serra da Mantiqueira

Ruas de pedra bruta, sete grutas com inscrições rupestres, cachoeiras encravadas na Serra da Mantiqueira e um ar de mistério que atravessa gerações. São Thomé das Letras fica no sul de Minas Gerais, empoleirada num dos pontos mais altos do interior mineiro, e transformou lendas em roteiro turístico.

Um santo, um escravizado e uma carta impossível

A origem da cidade está numa história repetida há mais de dois séculos. Segundo a Prefeitura Municipal de São Thomé das Letras, o escravizado João Antão, fugitivo da fazenda do capitão João Francisco Junqueira, no fim do século XVIII, encontrou refúgio numa gruta no alto da serra.

Ali, conforme a tradição oral preservada pelo município, teria recebido a visita de um homem de vestes brancas que lhe entregou uma carta destinada ao capitão. Junqueira ficou impressionado: o escravizado era analfabeto, mas a carta trazia caligrafia perfeita. Ao visitar a gruta, ele encontrou apenas uma imagem de São Tomé esculpida em madeira.

João Antão foi alforriado, e o capitão mandou erguer uma capela ao lado da gruta. Na entrada rochosa, inscrições avermelhadas lembravam letras, provavelmente feitas pelos índios Cataguases que habitavam a região antes da colonização. Daí nasceu o nome duplo: São Thomé, pelo santo, das Letras, pelas marcas na pedra.

A cidade que virou capital do misticismo mineiro

O arraial foi reconhecido oficialmente em 1770, quando o bispado de Mariana autorizou o padre Francisco Alves Torres a erguer uma ermida dedicada ao santo. Em 1785 começou a construção da Igreja Matriz de São Tomé, com retábulos rococó e forro pintado pelo artista colonial Joaquim José da Natividade.

O centro histórico foi tombado em 1996 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), o que preservou o traçado colonial e a arquitetura em pedra. Praticamente todos os casarões antigos foram erguidos com quartzito extraído das jazidas locais, principal atividade econômica da região desde o século XIX.

Com pouco mais de sete mil habitantes, a cidade a 1.440 metros de altitude virou destino de místicos, esotéricos e viajantes atrás de cachoeiras. As lendas fizeram a fama: dizem que a Gruta do Carimbado conecta o município a Machu Picchu, e a Ladeira do Amendoim ficou conhecida como o lugar onde os carros sobem sozinhos.

As sete grutas que guardam a memória da serra

São sete formações principais espalhadas pelo perímetro urbano e arredores. Cada uma carrega uma história própria, e algumas concentram inscrições rupestres importantes.

  • Gruta de São Thomé: fica ao lado da Igreja Matriz, no centro. As inscrições avermelhadas na entrada deram o “das Letras” ao nome da cidade, e o topo funciona como mirante.
  • Gruta do Carimbado: alvo da lenda do portal para Machu Picchu, tem visitação restringida por decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
  • Gruta do Sobradinho: uma das mais visitadas, no bairro homônimo, com formações amplas e acesso por trilha curta.
  • Gruta do Índio: pequena caverna com passagem estreita e ambiente reservado.
  • Gruta do Labirinto: fica no bairro do Sobradinho e exige acompanhamento de guia local.
  • Gruta da Bruxa: mais fechada, atmosfera peculiar e histórias envolvendo a bruxaria do folclore local.
  • Casa do Sino: caverna com pedras que produzem som metálico quando percutidas, uma das mais curiosas do circuito.

Cachoeiras entre paredões de quartzito

A geografia da serra criou dezenas de quedas d’água em raio curto. Segundo o Portal Minas Gerais, seis cachoeiras concentram o fluxo principal de visitantes durante o ano inteiro.

  • Cachoeira Véu de Noiva: queda de 20 metros com poço de três metros de profundidade, uma das mais visitadas do município.
  • Cachoeira Vale das Borboletas: cortina fina de 10 metros cercada por samambaias, com cenário quase de conto de fadas.
  • Cachoeira Eubiose: cascata em meio à mata, com poço amplo para banho.
  • Cachoeira Antares: fica em área de preservação e exige trilha um pouco mais longa.
  • Cachoeira da Lua: no alto da Serra do Gavião, com quartzito rosa formando pequenos poços e pinturas rupestres nas rochas ao redor.
  • Cachoeira Paraíso: a 9,5 km do centro, com queda de dois metros e poço largo de 20 metros por 15.

O que fazer no centro histórico

A cidade cabe em passeios a pé, com deslocamentos curtos entre as principais atrações. A maioria dos pontos mais procurados fica em torno da Praça Barão de Alfenas.

  • Igreja Matriz de São Tomé: iniciada em 1785, com retábulos rococó e forro pintado à mão no período colonial.
  • Igreja Nossa Senhora do Rosário: erguida no século XVIII com pedras empilhadas sem argamassa, protegida como patrimônio histórico.
  • Pirâmide: mirante em forma piramidal com vista panorâmica das montanhas circundantes, uma das paradas mais concorridas.
  • Ladeira do Amendoim: local famoso pela ilusão de ótica que faz carros parecerem subir sozinhos com o motor desligado.
  • Feira central: artesanato em quartzito, incensos, cachaças e doces típicos mineiros.

Sabores da montanha

A gastronomia acompanha a cozinha tradicional mineira, com adaptações da vida na serra. Os cafés e restaurantes concentram-se no centro histórico.

  • Frango com quiabo: clássico mineiro servido com angu e arroz branco em quase todos os restaurantes locais.
  • Feijão tropeiro: prato típico das rotas de tropeiros que cruzavam a Serra da Mantiqueira.
  • Doces caseiros: goiabada, marmelada e doce de leite vendidos em barracas da feira central.
  • Cachaças artesanais: produção do sul de Minas encontrada em lojas do centro, com destaque para as envelhecidas em madeira nobre.

Como é o clima de São Thomé das Letras durante o ano?

A altitude garante temperaturas amenas no verão e noites frias no inverno. O clima é tropical de altitude, com verões chuvosos e invernos secos.

Cachoeiras pela manhã
Grutas e centro histórico
Mirantes e Pirâmide
Trilhas e cachoeiras
Dica do especialista:
Mirantes e Pirâmide
Trilhas e cachoeiras

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à cidade das pedras

A cidade fica a cerca de 320 km de Belo Horizonte e 350 km de São Paulo, com acesso pela Rodovia Fernão Dias até Três Corações. Do centro do município mineiro segue-se por estrada sinuosa que sobe a serra até o topo do morro, onde a cidade se encaixa.

Leia também: Águas verde-esmeralda, piscinas naturais e uma lagoa gigante fazem desta capital um dos litorais mais bonitos do Brasil.

A cidade que virou lenda

Poucos destinos brasileiros combinam altitude, misticismo e patrimônio colonial com essa intensidade. São Thomé das Letras oferece um centro histórico todo de pedra, sete grutas com inscrições rupestres e cachoeiras que aparecem em cada curva da serra.

Você precisa conhecer São Thomé das Letras e caminhar pelas ruas de pedra que guardam uma das histórias mais curiosas do interior mineiro.

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