Uma TV Box pirata que antes servia apenas para IPTV irregular pode ganhar uma segunda vida como servidor Linux ou mini computador para ensino. Esse é o resultado de um projeto desenvolvido por Gabriel Cezar Lima, estudante do Bacharelado em Sistemas de Informação do IFPR Campus Ivaiporã, que publicou a primeira documentação conhecida para executar Linux diretamente no armazenamento interno (eMMC) da BTV B13, baseada no SoC Amlogic S905X4.
O trabalho vai além de uma curiosidade para entusiastas de hardware. A proposta surgiu dentro do IFPR para avaliar o reaproveitamento de TV Boxes apreendidas pela Receita Federal e transformá-las em equipamentos úteis para laboratórios de ensino. A ideia inicial partiu do professor Ronan Anacleto Lopes, coordenador do curso de Sistemas de Informação, enquanto a expansão para uso como mini desktop portátil foi sugerida pelo professor Lucas dos Santos Umeoka, ambos do campus Ivaiporã.
O que torna o projeto diferente
Rodar Linux em TV Boxes não é novidade. Diversos modelos já contam com distribuições adaptadas, normalmente inicializadas por um pendrive ou cartão microSD.
O diferencial do projeto está em outro ponto: a documentação mostra como fazer a BTV B13 iniciar o Linux diretamente do eMMC, dispensando mídia externa e tornando o equipamento muito mais prático para uso contínuo. Segundo o autor, trata-se da primeira documentação pública conhecida para esse modelo específico. Até o momento, não há registros equivalentes em outros idiomas.
Para isso, Gabriel utilizou um ESP32 como adaptador UART improvisado para acessar o bootloader da TV Box e modificou seu comportamento utilizando a partição KEYBOX, originalmente destinada ao armazenamento de chaves DRM do Android. Em vez de cumprir essa função, a partição passa a carregar um script personalizado do U-Boot responsável por iniciar o Debian instalado na memória interna.
Um mini computador de custo praticamente zero
Após as adaptações, a BTV B13 passa a executar Debian 13 com interface XFCE diretamente do armazenamento interno, iniciando em menos de cinco segundos, segundo os testes publicados pelo autor. A configuração também recebeu otimizações para melhorar o desempenho gráfico e reduzir gargalos encontrados durante os primeiros testes.
Embora o hardware tenha limitações, são apenas 2 GB de RAM, armazenamento eMMC de 16 GB e rede Ethernet de 100 Mb/s, o equipamento consegue atender diversas aplicações leves, como:
- servidor web (Apache ou Nginx);
- servidor MQTT e automação residencial;
- laboratório de programação Linux;
- desenvolvimento com Arduino e ESP32;
- ensino de redes e administração de servidores;
- estação de desenvolvimento para linguagens como Python.
Por outro lado, o próprio autor ressalta que a TV Box não é indicada para uso como desktop convencional com navegadores pesados ou para aplicações multimídia que dependam de aceleração de vídeo por hardware
Reaproveitamento de equipamentos apreendidos

O aspecto mais interessante do projeto talvez seja seu potencial educacional.
Todos os anos, milhares de TV Boxes ilegais são apreendidas pela Receita Federal. Parte desses equipamentos é destinada a instituições públicas de ensino por meio de programas de descaracterização e reaproveitamento tecnológico.
Iniciativas semelhantes já existem em outros Institutos Federais. O IFSP, por exemplo, desenvolve desde 2023 um projeto que converte TV Boxes apreendidas em computadores educacionais para escolas públicas.
O trabalho desenvolvido no IFPR complementa esse movimento ao documentar um modelo que ainda não possuía um procedimento público para inicialização do Linux pelo armazenamento interno.
O autor também cita como referência o projeto EducaBox, do IFMS, que documenta dezenas de modelos de TV Box, mas ainda não contemplava as BTV B13 e BTV E13. A expectativa é que a documentação publicada facilite futuras colaborações entre instituições interessadas em ampliar o reaproveitamento desses equipamentos
Código e documentação estão disponíveis
Todo o procedimento foi disponibilizado no Github, acompanhado de documentação técnica detalhada, scripts utilizados durante o processo, benchmarks e um diário de desenvolvimento.
Segundo Gabriel, a metodologia pode servir como base para adaptações em outros modelos equipados com processadores da família Amlogic, embora cada hardware apresente diferenças no bootloader e na configuração do sistema.
Se a iniciativa evoluir para métodos de instalação menos invasivos — eliminando a necessidade de soldagem e acesso via UART — o reaproveitamento dessas TV Boxes poderá se tornar ainda mais viável para escolas e laboratórios de informática.



