A cidade paulista onde pegadas de dinossauros de 135 milhões de anos dividem calçada com estudantes da UNESP

Fundada em 1817 e batizada em tupi como “toca das araras”, Araraquara é a cidade paulista que pisa em rastros que ninguém mais tem. Nas lajes de arenito do centro, mil pegadas de dinossauros ficaram marcadas quando a região era um deserto sob o céu do Período Cretáceo.

O padre italiano que reconheceu o Jurassic Park nas calçadas

Em 1976, o padre e paleontólogo italiano Giuseppe Leonardi caminhava pelo Parque Infantil, no centro da cidade. Ao olhar para o calçamento, reconheceu marcas familiares nas lajes: pegadas fósseis deixadas por dinossauros que passaram ali há cerca de 135 milhões de anos.

O arenito da Formação Botucatu, extraído de pedreiras da região desde o século 19, virou pavimentação de ruas e passeios do centro histórico. Sem saber, a cidade transformou um patrimônio paleontológico em calçada comum. Em 2019, a Câmara Municipal de Araraquara aprovou lei que exige avaliação técnica antes de qualquer remoção ou reforma dessas lajes.

Como é morar na Morada do Sol?

O apelido nasce da etimologia tupi do próprio nome da cidade, que significa “lugar onde o sol se recolhe”. A rotina dos moradores confirma o batismo: dias longos, luminosidade intensa e avenidas largas sombreadas por arborização planejada.

De acordo com a Prefeitura de Araraquara, o município ocupa 1.003 km² no centro geográfico do estado de São Paulo. O IDHM de 0,815 é classificado como muito alto e coloca a cidade entre as mais desenvolvidas do interior paulista, com destaque para a rede educacional ancorada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), pela Universidade de Araraquara (UNIARA) e pelo Instituto Federal de São Paulo (IFSP).

A primeira cidade 100% trólebus do país

A vocação inovadora aparece também na história do transporte público. A Companhia Trólebus de Araraquara (CTA), inaugurada em 1959, transformou o município na única cidade brasileira a operar 100% da frota de ônibus movida a energia elétrica.

Nos anos 1980, o sistema chegou ao auge, com 118 km de linhas e 46 mil passageiros transportados por dia. A operação foi desativada em 2000, mas o legado segue vivo no Museu do Trólebus, que preserva veículos originais e a memória do pioneirismo araraquarense em mobilidade limpa.

O que fazer no centro geográfico paulista?

O roteiro cabe em dois dias e mistura paleontologia, ferrovia e áreas verdes. A maioria das atrações fica a menos de 15 minutos de caminhada no centro.

  • Boulevard dos Oitis: trecho da Rua Voluntários da Pátria com 300 oitis centenários, plantados em 1911 pelo prefeito Major Dario Alves de Carvalho para combater a febre amarela.
  • Museu de Arqueologia e Paleontologia (MAPA): aberto em 2008 na Avenida Voluntários da Pátria, reúne 36 mil peças e a Sala Padre Giuseppe Leonardi com a exposição permanente sobre as pegadas.
  • Parque Natural Municipal do Basalto: 65 mil m² em antiga pedreira, com paredões de rocha vulcânica de 120 milhões de anos, cachoeira e trilhas ecológicas.
  • Matriz de São Bento: marco histórico da cidade, erguida no ponto inicial do povoado com doação de terras do fundador Pedro José Neto, hoje símbolo do centro.
  • Museu Ferroviário Francisco Aureliano de Araújo: instalado na antiga estação, preserva locomotiva a vapor, guichês originais e painel com a linha do tempo dos trilhos regionais.
  • Praça do DAAE e Fonte Luminosa Clélia Honain: cartão-postal dos anos 1940, com apresentações de chorinho aos domingos e sombra dos jacarandás em floração.

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Sabores italianos e mesa do interior paulista

A cozinha araraquarense herda os imigrantes italianos que ajudaram a erguer o comércio no ciclo do café. As cantinas do centro convivem com self-services de comida caipira e uma cena de bares em torno da Avenida Bento de Abreu.

  • Cantinas italianas: massas frescas, molhos de família e domingos em família marcam a herança dos imigrantes que se fixaram no interior paulista no fim do século 19.
  • Comida caipira: frango com quiabo, feijão tropeiro e arroz de carreteiro aparecem nos self-services tradicionais próximos ao Mercado Municipal.
  • Cachaças da região: alambiques de municípios vizinhos abastecem bares locais com rótulos que envelhecem em madeiras nativas do cerrado paulista.

Qual a melhor época para visitar a Morada do Sol?

O clima tropical faz jus ao apelido. O verão é quente e úmido, com pancadas de chuva no fim de tarde, enquanto o inverno seco favorece caminhadas pelo Boulevard dos Oitis e passeios a céu aberto.

museus e cantinas climatizadas
Boulevard dos Oitis e Basalto
passeios pelo centro e MAPA
Território da Arte e feiras
Dica do especialista:
inverno
outono
primavera
verão

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar ao coração geográfico de São Paulo?

Araraquara fica a 270 km da capital paulista pelas Rodovia dos Bandeirantes (SP-348) e Rodovia Washington Luís (SP-310), cerca de 3h30 de carro. O Aeroporto Estadual Bartholomeu de Gusmão recebe voos regionais, e há linhas regulares de ônibus saindo do Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo.

Pise nas pegadas e conheça a Morada do Sol

Poucas cidades brasileiras entregam um patrimônio paleontológico mundial no meio da calçada e ainda mantêm indicadores sociais entre os mais altos do país. Araraquara guarda 135 milhões de anos, os oitis do começo do século 20 e a memória do trólebus pioneiro no mesmo endereço.

Você precisa caminhar pelo Boulevard dos Oitis ao entardecer e sentir a cidade onde os dinossauros ainda dividem espaço com os estudantes da UNESP.

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