A Copa do Mundo de 2026 começa amanhã, 11 de junho, e a Netflix, HBO Max e Apple TV contam com algumas produções interessantes para todos aqueles que querem se manter imersos nesse ritmo do maior campeonato de futebol do mundo, relebrando conquistas marcantes do Brasil, uma investigação que expõe a politicagem que entregou a Copa de 2022 ao Catar. Um documentário sobre o motim que envergonhou a França inteira em 2010, e Lionel Messi narrando, em primeira pessoa, as cinco Copas que precisou disputar para finalmente conquistar uma.
Tetra: Acreditar de Novo

O melhor ponto de entrada para a Copa é um documentário que parece ter saído de um baú esquecido. “Tetra: Acreditar de Novo”, disponível na Netflix reconstrói a campanha do tetracampeonato de 1994 a partir de um material que ninguém esperava que existisse: o goleiro Gilmar Rinaldi filmou treinos, conversas e a rotina do grupo em fitas cassete durante todo o torneio nos Estados Unidos. O lateral-direito Jorginho também gravou mais de seis horas de material da convivência do elenco.
Em meio a esses takes exclusivos, personagens-chave do elenco, como Dunga, Romário e Bebeto trazem novos depoimentos que retratam a atmosfera daquela Copa emblemática. O Brasil chegou àquela Copa sem ter vencido o Mundial desde 1970, carregando 24 anos de uma espera, e em meio a um luto nacional, com a morte do Ayrton Senna. A conquista daquele campeonato foi simbólica, e a produção da Netflix consegue contar o peso, em termos de importância, que o título representou ao país.
Brasil 70: A Saga do Tri

Em “Brasil 70: A Saga do Tri” a aposta diferente. Estreou na Netflix em 29 de maio, tem cinco episódios e é ficção, não um documentário. A produção, dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles, vai dos preparativos do time até a conquista do tricampeonato no México. Rodrigo Santoro interpreta o jornalista e ex-técnico João Saldanha, Bruno Mazzeo é Zagallo e Lucas Agrícola é Pelé.
A produção, criada em parceria com a O2 Filmes, romantizou muitos momentos, o que desagradou os envolvidos diretos naquela campanha histórica. Tostão, meia titular daquela seleção e colunista da Folha de São Paulo, escreveu que a série é “sensacionalista” e tem “muitas cenas inventadas”. O exemplo mais direto: há uma sequência em que o personagem de Tostão vai até Zagallo e pede para ser titular algo que, segundo ele, jamais aconteceu. A imagem de Pelé também incomodou: a série o retrata com inseguranças e fragilidade emocional. Tostão discordou, dizendo que “Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente.”
O próprio Tostão admitiu que a série “é bem feita, prazerosa de se ver, emocionante” e elogiou os atores.
A reconstituição das partidas, e o nível de produção geral, são impressionantes. Sobre as atuações, Rodrigo Santoro, como João Saldanha entrega a melhor performance da série.
Os Homens que Venderam a Copa do Mundo

Para quem quer entender a política que move o futebol, vale a pena conferir “Os Homens que Venderam a Copa do Mundo“, disponível no HBO Max. São dois episódios que colocam repórteres investigativos como protagonistas em campo. Os jornalistas do Sunday Times Heidi Blake e Jonathan Calvert conduzem a narrativa. O primeiro episódio reconstrói a corrupção dentro da FIFA a partir do trabalho de apuração dos dois; o segundo acompanha os investigadores do FBI e da Receita Federal americana que tornaram a investigação criminal possível. Sepp Blatter, presidente da FIFA à época, dá entrevista e afirma que ele próprio não queria que a Copa de 2022 fosse para o Catar (ele queria que fosse nos EUA, um dos países que sediará a Copa de 2026). . Jurgen Klinsmann e Landon Donovan também aparecem.
É um documentário que funciona menos como exposição institucional e mais como thriller de reportagem. Recomendadíssimo!!
Brasil 2002: Os Bastidores do Penta
“Brasil 2002: Os Bastidores do Penta” está na Netflix funciona como o equivalente do tetra para a geração seguinte. O documentário traz imagens inéditas da preparação e da campanha da seleção que conquistou o pentacampeonato na Coreia do Sul e no Japão, com entrevistas dos jogadores. É o Brasil dos Ronaldos, Fenômeno e Ronaldinho, de Rivaldo, e de Luiz Felipe Scolari como o arregimentador desse grupo fantástico.
Foi Júlio Belletti, lateral-direito reserva que entrou em campo apenas nas últimas rodadas, quem carregou a câmera pelo vestiário, pelo ônibus e pelos corredores de hotel durante todo o torneio. O jogador que acabou virando o documentarista da emoção e os momentos vividos pelo grupo. Essas filmagens foram organizadas para o documentário pelo diretor Luis Ara, o mesmo de Para Sempre Chape (2018).
O documentário abre com 1998. Não começa com a taça, começa com o trauma: a derrota por 3 a 0 para a França na final de Paris, a convulsão de Ronaldo no dia do jogo, os quatro anos que separaram o colapso do resgate. É o contexto dramático narrado pelos próprios envolvidos, Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu aparecem em entrevistas, assim como Juninho Paulista e o próprio Belletti.
O maior furo do documentário é a ausência de Luiz Felipe Scolari. O técnico que batizou o grupo de “Família Scolari” e fez da gestão emocional do elenco um diferencial tático, num grupo ainda traumatizado por 1998, não aparece em nenhum momento. Para um filme que se propõe a contar a história pelos bastidores humanos, deixar Felipão de fora é uma lacuna;.
A Greve da Seleção da França

Em 20 de junho de 2010, em Knysna, na África do Sul, o ônibus da seleção francesa parou na beira do campo de treinamento. Os jogadores desceram, cumprimentaram os torcedores, e voltaram para dentro. Patrice Evra leu uma nota em voz alta na frente das câmeras. Era uma greve. Ao vivo. Essa é a história contada no documentário “A Greve da Seleção da França, disponível na Netflix.
O estopim foi uma discussão no vestiário durante o intervalo do jogo contra o México, com a França perdendo por 2 a 0. Nicolas Anelka xingou o técnico Raymond Domenech. A federação exigiu um pedido público de desculpas. Ele recusou, foi cortado da Copa, e o elenco respondeu se recusando a treinar. A França não venceu nenhuma partida, terminou em último no grupo e foi eliminada na fase de grupos.
O grande acesso da produção é Domenech em pessoa, revelando anotações do diário pessoal que manteve durante o torneio, ao lado de Patrice Evra, que chegou a versões diferentes dos mesmos eventos. Domenech não gostou do resultado: chamou o documentário de “um ataque extraordinariamente violento” e de “uma parcialidade nauseabunda”.
Ainda assim, a produção acerta em cheio ao reconstruir o clima de implosão daquela seleção sem transformar tudo em simples fofoca de vestiário. O documentário funciona porque organiza bem a cronologia do motim, usa imagens de arquivo que devolvem o tamanho do vexame em tempo real e deixa claro como uma crise interna virou humilhação pública diante do mundo.
A Copa do Mundo de Messi – A Ascensão da Lenda
A Copa do Mundo de Messi – A Ascensão da Lenda” está na Apple TV+ e é narrado pelo próprio protagonista de uma trajetória meteórica. São quatro episódios de aproximadamente 44 minutos cada, cobrindo as cinco participações de Messi em Copas do Mundo, de 2006 ao Catar em 2022, com ele mesmo conduzindo a narrativa nas suas próprias palavras.
O recorte da produção não é a Copa de 2022 isoladamente. É a acumulação de fracassos que tornaram a conquista possível: a geração que perdeu a final para a Alemanha em 2014 no Maracanã por 1 a 0 na prorrogação, as finais da Copa América perdidas em 2015 e 2016, o ano em que anunciou aposentadoria da seleção e voltou atrás. A final do Catar contra a França, 3 a 3 no tempo normal, com a Argentina campeã nos pênaltis funciona como desfecho de uma narrativa que o documentário constrói ao longo de dezesseis anos.
Messi não é conhecido por falar muito. Aqui ele fala sobre pressão, sobre o peso de não ter ganho com a seleção enquanto ganhava tudo com o Barcelona, sobre o que sentia nos vestiários antes das finais perdidas. É o tipo de material que não aparece em entrevistas coletivas. Para quem vai acompanhar a Copa de 2026 sabendo que Messi está em campo possivelmente pela última vez, o documentário funciona como contexto obrigatório.



