Criança vê pais checando celular dezenas de vezes por dia e imita o comportamento, aponta estudo

Um levantamento com 14.900 participantes em 10 países encontrou uma relação direta entre o tempo que pais passam no celular e o tempo de exposição dos filhos. O dado aparece em uma metanálise publicada na JAMA Pediatrics e também aponta associação com pior desempenho cognitivo e maior frequência de comportamentos como irritação e ansiedade.

A relação observada no estudo segue um mecanismo descrito ainda em 1977. O psicólogo Albert Bandura definiu que crianças aprendem por observação. O processo começa com atenção ao comportamento do adulto, passa pela retenção, pela capacidade de reproduzir e termina quando há uma recompensa percebida. O riso ao olhar a tela funciona como sinal de prazer e reforça o gesto.

O impacto não depende só de repetição. O uso constante do celular reduz interações que sustentam o desenvolvimento infantil. Linguagem, atenção e controle emocional dependem de troca direta, com resposta rápida e contato visual. Quando esse ciclo é interrompido, o estímulo diminui.

Esse comportamento já foi observado fora de casa. Em 2014, um estudo publicado na revista Pediatrics acompanhou famílias durante refeições em restaurantes. Parte dos pais permaneceu focada no telefone. Crianças tentaram recuperar atenção com mudanças de comportamento, e em alguns casos a resposta dos adultos foi mais ríspida.

A Academia Americana de Pediatria recomenda zero exposição a telas para menores de 18 meses, com exceção de chamadas de vídeo. Entre 2 e 5 anos, o limite indicado é de até 1 hora por dia, com conteúdo selecionado e participação de um adulto.

O ciclo de verificação constante do celular opera por recompensa-imediata no cérebro adulto. O cérebro não avalia se a recompensa é relevante; ele registra que checar a tela às vezes entrega algo e passa a repetir o gesto. Esse mecanismo aumenta a liberação de dopamina e acelera ciclos de prazer, criando padrões similares a outros vícios comportamentais. O reforço intermitente, quando a recompensa aparece de forma imprevisível, é o mecanismo mais viciante da psicologia comportamental.

O que o vício de checar o celular a cada poucos minutos está fazendo com seu cérebro

O Brasil é o país onde as pessoas passam mais tempo em redes sociais no mundo: 3 horas e 32 minutos por dia, segundo o Relatório Digital 2025 da We Are Social. No total, são 9 horas online diárias. Cada verificação ativa dopamina, não o prazer em si, mas a antecipação de que algo pode ter chegado.

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