Jeff Bezos foi ao ar na CNBC na última quarta-feira, 20 de maio, com uma tese que mistura otimismo sincero e conveniência estratégica: a inteligência artificial vai fazer preços caírem, gerar escassez de trabalhadores e permitir que famílias vivam com uma renda só. A Amazon, enquanto isso, acabou de executar a maior rodada de demissões da sua história.
Na entrevista ao jornalista Andrew Ross Sorkin no Squawk Box, o chairman executivo da Amazon, cargo que assumiu em 2021 ao passar o CEO para Andy Jassy, disse que “vai haver deflação” e que “alimentos e construção civil vão ficar mais baratos” à medida que a produtividade impulsionada por IA se disseminar pela economia. Sua lógica: trabalhadores mais produtivos fazem mais com menos, preços caem, e famílias com dois salários vão ver um dos membros sair voluntariamente do mercado de trabalho. O cenário que ele descreve é de abundância. “Vai haver escassez de trabalho”, disse Bezos, rejeitando o argumento de que a IA vai substituir radiologistas ou engenheiros de software.
A IA vai mesmo gerar empregos, como Bezos diz?
Bezos não é o primeiro a defender esse argumento, mas é provavelmente quem tem mais a perder se ele estiver errado. Na entrevista à CNBC, ele comparou trabalhadores com IA a trabalhadores com escavadeiras: mais capazes, não descartáveis. O problema é que a Amazon, a empresa onde ele ainda é o principal acionista e presidente do conselho, demitiu 30 mil funcionários corporativos entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, o maior layoff da história da companhia, afetando AWS, Prime Video e RH. Quando Sorkin perguntou diretamente se havia demissões ligadas à IA na Amazon, Bezos respondeu que não. A coincidência de escala incomoda.
Em 2022, a Amazon já tinha cortado 27 mil postos, num ciclo anterior justificado pelo excesso de contratações pós-pandemia, o atual bateu aquele recorde com folga.
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O argumento de Bezos tem uma premissa silenciosa: que os ganhos de produtividade vão se traduzir em preços menores para o consumidor final, e não em margens maiores para as empresas. Essa transferência nunca é automática.
Em outubro de 2025, Bezos já tinha classificado a IA como uma ‘bolha industrial’ durante a Italian Tech Week, em Turim, comparando o momento atual com as bolhas pontocom e de biotecnologia dos anos 2000. Agora, seis meses depois, na mesma CNBC, o tom mudou: sem menção à bolha, foco total na narrativa de abundância. O que mudou entre outubro e maio não foi a tecnologia, foi que a Amazon acelerou seus investimentos em IA generativa e Bezos tem interesse direto em múltiplas startups do setor.
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