Um estudo liderado pelo cientista Colin Raymond, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, publicado na revista Science Advances, colocou o Brasil no mapa global das regiões mais vulneráveis ao calor extremo combinado com umidade. A pesquisa não faz previsão catastrófica do dia para amanhã, mas identifica que as condições de calor úmido capazes de matar seres humanos sadios já dobraram em frequência desde 1979 e aponta que partes do Centro-Oeste, Norte, Nordeste e litoral do Sudeste brasileiro podem ultrapassar o limite fisiológico de sobrevivência humana até 2070, caso as emissões de gases de efeito estufa continuem no ritmo atual. Os dados já chegaram ao cotidiano: segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o número de dias com ondas de calor no Brasil aumentou oito vezes nos últimos 60 anos, passando de uma média de 7 dias no período histórico para 52 dias na década de 2010.
O que o estudo da NASA realmente diz sobre o Brasil?
É importante entender o que o estudo é e o que ele não é. A pesquisa original de Raymond, publicada em 2020 na Science Advances, não menciona o Brasil pelo nome. Ela mapeou globalmente eventos de temperatura de bulbo úmido acima de 35°C, que representa o limite fisiológico máximo que um ser humano consegue suportar. Em 2022, um artigo do site de ciências da NASA retomou o estudo e identificou o Brasil como uma das regiões que podem alcançar esse limiar até 2070. A Agência Brasil ouviu especialistas brasileiros que confirmaram a solidez da metodologia: o climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas nacionais no tema, disse que o estudo “é bem conhecido em círculos científicos” e que as projeções fazem sentido para o cenário de aquecimento de 4°C acima dos níveis pré-industriais.
O mecanismo por trás do risco é simples de entender. Quando a umidade está muito alta, o suor humano não evapora, e a transpiração deixa de funcionar como sistema de resfriamento do corpo. Se a temperatura interna ultrapassar 42°C, surgem danos cerebrais e falência de órgãos. A temperatura de bulbo úmido de 35°C representa esse ponto de ruptura: uma pessoa saudável exposta a essa combinação de calor e umidade por seis horas ou mais corre risco de morte, mesmo sem esforço físico.
Quais regiões do Brasil estão mais expostas ao risco?
A projeção considera cenários de aquecimento distintos, e as regiões em risco variam conforme a intensidade do aumento global de temperatura. O Inmet já registrou em dezembro de 2025 alerta vermelho de grande perigo em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás e Mato Grosso do Sul, com temperaturas até 5°C acima da média histórica. São Paulo chegou a 37,2°C em 28 de dezembro de 2025, a maior temperatura para dezembro na cidade desde 1961. As áreas que a literatura científica aponta como mais vulneráveis ao calor úmido letal são:
- Amazônia e Norte: a combinação de floresta densa, umidade elevada e aumento de temperatura pelo desmatamento cria condições que aceleram o risco; Belém, que não registrava ondas de calor nos anos 1970, atingiu média anual de 11 ocorrências nas décadas de 2000 e 2010
- Nordeste: região já exposta a calor intenso, com estações de seca prolongadas; Salvador saltou de 0,5 onda de calor por ano nas décadas de 1970–80 para 3,5 ao ano nas décadas de 2000–10
- Centro-Oeste: cerrado com verões cada vez mais quentes e secos; no inverno, as temperaturas já passam dos 35°C em cidades da região com frequência crescente
- Litoral do Sudeste: Rio de Janeiro e São Paulo aparecem na análise do geólogo Fernando Cesario, da The Nature Conservancy, como regiões de risco elevado pela combinação de calor, umidade e asfalto urbano, além de áreas próximas a grandes baías
O Brasil já sente os efeitos do calor extremo hoje?
Sim, e os números são mais graves do que a maioria percebe. Um estudo publicado em dezembro de 2024 na revista Environmental Epidemiology mapeou mais de 142 mil mortes relacionadas a temperaturas extremas no Brasil entre 1997 e 2018. Outro levantamento analisado pelo Observatório do Clima encontrou 48.075 mortes atribuíveis especificamente a ondas de calor nas 14 maiores regiões metropolitanas brasileiras entre 2000 e 2018. Doenças circulatórias, respiratórias e agravamento de condições crônicas foram as causas mais frequentes. A pesquisadora Renata Libonati, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, descreveu o calor como “um desastre negligenciado no Brasil e na maior parte das regiões tropicais”. Em 2023 o Brasil registrou nove ondas de calor; em 2024, oito; e nos primeiros dois meses de 2025 já foram três episódios, segundo o Inmet.
Quem é mais vulnerável ao calor extremo no Brasil?
Os dados mostram que as mortes por calor não atingem a população de forma igualitária. A pesquisa do MCTI identificou que mulheres, idosos, pessoas pretas e pardas e aqueles com menos de quatro anos de escolaridade foram desproporcionalmente afetados pelas ondas de calor. A explicação não é biológica: é socioeconômica. Quem mora em imóveis sem ventilação, trabalha ao ar livre, não tem acesso a ar-condicionado ou vive em regiões com menos áreas verdes está exposto a condições muito mais severas do que a temperatura oficial registrada pelo INMET sugere. Nas regiões Norte e Nordeste, entre 17% e 25% das mortes relacionadas ao calor ocorreram em pessoas com menos de 65 anos, percentual significativamente mais alto do que o observado no Sul e Sudeste, onde o mesmo grupo representou 6% a 19% dos óbitos.
O futuro pode ser diferente se agirmos agora?
A projeção de regiões inabitáveis em 2070 é um cenário condicionado, não uma sentença. O estudo da NASA projeta esse horizonte para o caso de emissões continuarem em ritmo acelerado e o aquecimento global ultrapassar 4°C acima dos níveis pré-industriais. O Acordo de Paris, que o Brasil assinou, estabelece como meta limitar o aquecimento a 1,5°C, patamar em que as projeções de calor extremo para o Brasil são significativamente menos severas. O climatologista Carlos Nobre foi preciso ao contextualizá-lo: “Não é só o Brasil. É uma imensa parte das regiões tropicais e até latitudes médias que podem ficar inabitáveis se a temperatura chegar nesse nível.” A janela de ação existe. O que o estudo deixa claro é que cada décimo de grau de aquecimento evitado tem impacto direto na quantidade de pessoas que poderão viver com segurança nas regiões mais quentes do planeta.



