A Ajinomoto é conhecida no mundo inteiro pelo glutamato monossódico, mas controla um elo da cadeia de suprimentos de chips de inteligência artificial que nenhuma outra empresa no planeta consegue substituir: o filme isolante ABF, material sem o qual nenhuma GPU de alto desempenho sai da linha de produção.
Do tempero ao substrato

Por que o problema piora com chips maiores
Cada acelerador de IA consome entre 15 e 18 vezes mais ABF do que um chip convencional, porque exige entre 8 e mais de 16 camadas do material dependendo do tamanho do die. O Blackwell já demanda aproximadamente o dobro da área de substrato em relação ao Hopper, seu antecessor, e o Rubin deve elevar ainda mais esse consumo, com aumento estimado em 75% ou mais em relação ao Blackwell. Esse crescimento exponencial por chip transforma qualquer aumento de demanda em escassez quase automática: quando a Ibiden anunciou expansão de capacidade em larga escala, o mercado registrou que mesmo dobrando a produção até o fim do exercício fiscal de 2027 a pressão sobre o fornecimento não será eliminada.
O gargalo real da cadeia
O ABF em si é produzido apenas pela Ajinomoto Fine-Techno, mas o produto final que chega a empresas como NVIDIA e AMD é o substrato acabado, fabricado por um punhado de fabricantes com processo certificado, dos quais apenas Ibiden, do Japão, e Unimicron, de Taiwan, têm capacidade técnica para atender ao segmento de servidores de IA. Juntos com AT&S, Nan Ya PCB e Shinko Electric, esses cinco players controlam 74% do mercado global de substratos ABF. A Unimicron anunciou expansão de US$ 1,2 bilhão em dezembro de 2025, adicionando 20% de capacidade voltada especificamente para GPUs Blackwell, com investimentos programados acima de NT$ 25 bilhões (cerca de US$ 790 milhões) apenas em 2026
Escala e risco de superprodução
Aumentar capacidade de ABF não é simples. A Ajinomoto precisa calibrar cada expansão de fábrica contra o risco de sobreprodução: investir pesado em um mercado que pode desacelerar representa perda direta, o que historicamente manteve a empresa conservadora nos planos de crescimento. Além disso, a técnica de circuito semi-aditivo (SAP), usada nos processos mais modernos de empilhamento de camadas, eleva a taxa de falha em substratos multicamada complexos, reduzindo o rendimento final da produção a cerca de 70% nos produtos de alto desempenho.
Reservas antecipadas e ciclo de escassez
Grandes operadoras de nuvem já respondem a esse cenário firmando contratos de fornecimento de longo prazo com a Ajinomoto e cofinanciando novas linhas de produção. A DigiTimes projeta crescimento de dois dígitos ao ano na demanda por ABF, com um ciclo de escassez estrutural que deve se estender por pelo menos três anos. O mercado de substratos ABF foi avaliado em US$ 606 milhões em 2024 e deve atingir US$ 1,144 bilhão em 2031, a um CAGR de 9,7%; outra projeção aponta para US$ 1,5 bilhão em 2024 chegando a US$ 3 bilhões em 2033, crescimento de 9% ao ano. Em qualquer cenário, Unimicron registrou em 2025 crescimento de receita de 13,75% no ano, com lucro líquido de dezembro disparando 2.770% em relação ao mesmo período do ano anterior, reflexo direto da escassez que pressiona margens para cima



