Mais de uma dúzia de acionistas estão pressionando Amazon, Microsoft e Google para que as empresas abram os números do que seus data centers consomem de água e eletricidade, especialmente após a expansão acelerada da infraestrutura de inteligência artificial. A cobrança ganhou força antes das assembleias anuais de acionistas deste ano e é direta: sem dados específicos por unidade, não é possível avaliar riscos operacionais nem medir o impacto ambiental de cada instalação.
O pano de fundo é expressivo. Segundo a consultoria Mordor Intelligence, os data centers da América do Norte consumiram quase 1 trilhão de litros de água em 2025, volume equivalente à demanda anual da cidade de Nova York. Boa parte desse consumo serve ao resfriamento dos servidores, que operam 24 horas por dia para sustentar tarefas pesadas como modelos de linguagem e mineração de criptomoedas — e geram calor proporcional.
O que os números de cada empresa revelam
A Meta é quem tem o dado mais detalhado disponível, ainda que parcial: o consumo de água da empresa cresceu 51% entre 2020 e 2024, chegando a 5.637 megalitros, o suficiente para abastecer mais de 13 mil casas durante um ano, mas os números excluem unidades alugadas e instalações em construção. O Google divulgou o consumo de unidades próprias e alugadas, porém deixou de fora as operadas por terceiros. Amazon e Microsoft forneceram apenas totais globais, sem qualquer abertura por local de operação.
Essa inconsistência nos critérios de divulgação é exatamente o que incomoda os acionistas. Jason Qi, da Calvert Research and Management, resumiu o problema: “Não vimos divulgação suficiente sobre o consumo de água e seus efeitos locais”. Andrea Ranger, diretora de interesses dos acionistas da Trillium Asset Management, gestora com mais de US$ 4 bilhões sob gestão, apresentou em dezembro uma resolução formal à Alphabet pedindo que a empresa explique como pretende cumprir suas metas climáticas com a demanda energética crescendo nesse ritmo.
O custo que chega na conta do vizinho
A pressão não vem só dos acionistas. Um relatório da Bloom Energy de janeiro de 2026 projeta que a demanda total de energia dos data centers nos EUA vai quase dobrar entre 2025 e 2028, saltando de 80 para 150 gigawatts, o equivalente a adicionar um país com a necessidade energética da Espanha em apenas três anos. Esse crescimento já aparece nas contas de luz dos moradores próximos às instalações: uma análise da Bloomberg identificou que regiões com alta concentração de data centers registraram alta de 267% nos preços de eletricidade nos últimos cinco anos.
John Steinbach, morador de Manassas, na Virgínia, recebeu em janeiro de 2026 uma conta de US$ 281, mais que o dobro dos US$ 100 que pagava normalmente, e atribuiu o salto à proliferação de data centers no estado. Uma pesquisa de janeiro de 2026 conduzida pelo Global Strategy Group com o Chesapeake Climate Action Network Action Fund mostrou que quase três em cada quatro eleitores da Virgínia culpam os data centers pelo aumento nas tarifas de energia.
O que as empresas responderam
A Amazon afirmou, por meio de Josh Weissman, diretor de fornecimento de capacidade de infraestrutura, que está “divulgando cada vez mais dados de consumo de água específicos dos locais onde operamos”. Um porta-voz da empresa acrescentou que a companhia se comprometeu a ser uma “boa vizinha”, investindo em eficiência energética e redução do consumo de água. A Microsoft disse que sustentabilidade é um “valor central” e que trabalha em soluções de longo prazo para os desafios ambientais — sem citar metas específicas. O Google não comentou o assunto, e a Meta não respondeu.
O escrutínio dos investidores também se expande para além das três. A Green Century Capital Management está em negociações com a Nvidia para garantir que os “ganhos de curto prazo da IA não venham às custas do risco climático e financeiro de longo prazo”, segundo a Reuters. As três empresas também cancelaram recentemente projetos bilionários de novos data centers após resistência de comunidades locais, o que aumentou a urgência dos acionistas por dados que permitam prever onde o próximo conflito vai surgir.



