Majin Sonic: A história por trás do easter egg “amaldiçoado” de Sonic CD que assombrou gerações

Sonic CD chegou ao Sega CD, também conhecido como Mega-CD em 1993 com um segredo que ninguém planejou ser assustador. Para acessá-lo na versão original, o jogador precisava inserir a sequência baixo, baixo, baixo, esquerda, direita e A na tela de título para abrir o Teste de Som oculto e, dentro dele, selecionar os sons FM 46, PCM 12 e DA 25 nessa ordem. O resultado era uma tela com dezenas de versões de Sonic usando rostos horripilantes e uma mensagem em japonês: “A diversão é infinita com Sega Enterprises — Majin”.

Por que “Majin” assustou tanta gente

A palavra “Majin” foi o centro de toda a confusão. Em japonês, o termo (魔神) pode ser traduzido como “demônio”, “djinn” ou “ser sobrenatural”, e sua presença numa tela secreta com imagens distorcidas do personagem foi suficiente para alimentar teorias de que o cartucho estava amaldiçoado. Circulou até a versão de que a tela funcionava como medida antipirataria, exibida apenas em cópias ilegais, mas isso nunca foi confirmado e pesquisadores do hardware já descartaram a hipótese.

A assinatura de Masato Nishimura

A origem real do segredo é bem menos sinistra. “Majin” era na verdade “Mazin”, apelido de infância do designer Masato Nishimura, responsável pelos cenários e fundos de fase do jogo, que surgiu porque o kanji do seu nome próprio (真人) admite uma leitura alternativa que soa como “Majin”. O rosto bizarro no Sonic era uma caricatura do próprio Nishimura, e a frase “a diversão é infinita” (たのしさ∞) não foi criada por ele: era o slogan oficial da Sega registrado em catálogos da empresa de 1987 a 1993 e exibido no estande físico da companhia no Tokyo Toy Show de 1990, como mostra a iamgem abaixo.

Os três números da combinação, FM 46, PCM 12 e DA 25, não têm explicação pública confirmada pelo próprio Nishimura. A teoria mais citada entre fãs os interpreta como referência à data 25/12, mas o número 46 no canal FM não encontra encaixe óbvio nessa leitura. O que se sabe é que Nishimura foi além da assinatura visual: a voz do “I’m outta here!” que Sonic diz ao ser ignorado por 3 minutos e o “Yes!” do 1-up também são dele, gravadas porque as falas eram poucas demais para justificar contratar um dublador profissional. Na entrevista da Marukatsu Mega Drive de 1993, ao ser perguntado sobre os jogos anteriores da série, ele disse ver os próprios títulos como rivais a superar, não como aliados, e que Sonic CD estava “repleto de conteúdo” depois de um desenvolvimento longo. Ao longo da carreira, escondeu a mesma assinatura “Mazin” em outros jogos, incluindo Shenmue.

O acidente de localização que mudou tudo

A Sega of America considerou que a trilha original soava próxima demais às produções de dança eletrônica da época e encomendou uma nova, nas palavras do compositor Spencer Nilsen em entrevista ao Sega-16 em  2008, pedindo algo “mais rico e complexo musicalmente”. O prazo foi de dois meses, e as cópias de review do jogo com a trilha japonesa já tinham sido enviadas para a imprensa quando o pedido chegou. Nilsen dividiu a composição com David Young, e a trilha da batalha contra chefes, exatamente a faixa que toca no easter egg, ficou a cargo de Sterling Crew, ex-tecladista do Santana, creditado simplesmente como “Sterling”.

O resultado foi uma trilha com estética mais sombria do que a japonesa, e a música dos confrontos contra chefes apresenta risadas graves e distorcidas do Dr. Robotnik. Como o easter egg usa exatamente essa faixa, jogadores norte-americanos se depararam com a tela do “demônio” acompanhada de uma trilha que soava como trilha de terror, enquanto europeus e japoneses ouviam algo mais próximo de um jingle de videoclipe dos anos 1990. Nishimura planejou o segredo pensando na trilha original, onde o efeito seria claramente inofensivo — ele próprio descreveu a decisão como “leviandade da juventude”.

A polêmica do bigode que durou décadas

Com o crescimento da lenda, fãs passaram anos debatendo um detalhe aparentemente pequeno: o traço no rosto do personagem era a sombra da maçã do rosto ou um bigode? Em 2021, o perfil oficial da Sega no Twitter publicou uma ilustração de Halloween do personagem, com bigode desenhado explicitamente, o que deu ainda mais força ao time do bigode.

 

 

Pouco depois, um fã perguntou diretamente a Nishimura via mensagem direta, e a resposta foi categórica: era sombra do osso zigomático, não bigode. A ilustração oficial, segundo o próprio criador, adotou uma versão diferente da intenção original.

O nome “Majin Sonic”, consagrado pelos fãs, também não é o que Nishimura usa: ele chama o personagem de “Tanoshisa Mugen Sonic” (たのしさ∞ ソニック), que em português seria algo como “Sonic da Diversão Infinita”, um contraste ainda mais irônico com a reputação aterrorizante que o personagem ganhou.

Por que o easter egg sumiu nas versões modernas

O segredo não sobreviveu às reedições do jogo. Tanto a versão de 2011 para PS3 e Xbox 360 quanto a coletânea Sonic Origins de 2022 removeram os canais de áudio FM, PCM e DA do menu de Teste de Som, exatamente os canais que precisam ser configurados para a sequência funcionar. O easter egg existe hoje apenas na versão original do Mega-CD e em emuladores que reproduzem o hardware com precisão.

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