A Capital Nacional do Doce guarda casarões coloniais, charque e receitas com mais de três séculos

O cheiro de açúcar caramelizado escapa pelas portas das confeitarias e se mistura ao vento frio que sopra da Lagoa dos Patos. Em Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul, a Capital Nacional do Doce encanta com casarões revestidos de azulejos portugueses dividem o cenário com charqueadas à beira do arroio e uma tradição doceira reconhecida como patrimônio do Brasil.

Do sal ao açúcar: a história que adoçou o Rio Grande do Sul

Pelotas nasceu do charque. No século XIX, mais de 50 charqueadas funcionavam às margens do Arroio Pelotas, produzindo carne salgada que alimentava o país inteiro. Os navios que levavam o charque para o Nordeste voltavam carregados de açúcar. Dentro dos casarões da elite local, esse açúcar se transformou em doces finos à base de ovos, seguindo receitas trazidas por famílias portuguesas.

Em 2018, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu o Conjunto Histórico de Pelotas como Patrimônio Cultural e, na mesma sessão, registrou as Tradições Doceiras da região como Patrimônio Imaterial. Foi a primeira vez na história do instituto que uma cidade recebeu duplo reconhecimento em uma única reunião.

O que visitar no centro histórico da Princesa do Sul?

Tombado pelo IPHAN, o centro histórico concentra seus principais marcos ao redor de quatro praças. Os prédios preservam fachadas com azulejos importados de Portugal e detalhes em estilo neoclássico e eclético.

  • Praça Coronel Pedro Osório: coração da cidade, cercada pela Prefeitura, a Biblioteca Pública Pelotense, o Grande Hotel e a Fonte das Nereidas. Os casarões ao redor formam um museu a céu aberto.
  • Theatro Sete de Abril: inaugurado em 1834, é o teatro mais antigo do Rio Grande do Sul. Abriga espetáculos e visitas guiadas que contam a história cultural da cidade.
  • Mercado Público: construído em 1848, funciona como mercado central até hoje. No topo, um farol metálico instalado em 1914 lembra a silhueta da Torre Eiffel.
  • Museu do Doce: instalado num casarão histórico, conta a trajetória da tradição doceira pelotense com acervo, utensílios e documentos de época.
  • Museu da Baronesa: residência de 1863 transformada em museu, com mais de 2 mil peças que ilustram os costumes da elite charqueadora do século XIX.

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As charqueadas ainda guardam o passado às margens do arroio?

Das mais de 50 charqueadas que existiram em Pelotas, cerca de dez tiveram parte de sua área preservada. Algumas foram transformadas em museus e hospedagens que oferecem imersão na história da cidade.

A Charqueada São João, construída em 1810 e reconhecida como Patrimônio Nacional pelo IPHAN, mantém as características arquitetônicas originais e o acervo museológico da época. Foi cenário das séries A Casa das Sete Mulheres e O Tempo e o Vento. A visita guiada inclui passeio de barco pelo Arroio Pelotas. A Charqueada Santa Rita e a Charqueada Boa Vista também recebem visitantes e oferecem hospedagem.

Quais doces experimentar na terra do camafeu?

A tradição doceira pelotense se divide em duas vertentes: os doces finos, de origem portuguesa e à base de ovos e açúcar, e os doces coloniais, feitos com frutas da região por imigrantes alemães, pomeranos e italianos. Ambas foram registradas pelo IPHAN como patrimônio imaterial.

  • Camafeu e ninho: clássicos dos doces finos, presentes em confeitarias do centro o ano inteiro.
  • Bem-casado e pastel de Santa Clara: massa fina recheada com doce de ovos, símbolo da confeitaria pelotense.
  • Compotas e cristalizados: representantes da tradição colonial, preparados com figo, pêssego e marmelo em tachos de cobre.
  • Quindim: feito com gema de ovo, coco e açúcar, é servido em praticamente todas as mesas da cidade.

A Fenadoce (Feira Nacional do Doce), realizada anualmente desde 1986, reúne expositores, shows e oficinas de confeitaria. O evento acontece no meio do ano e atrai visitantes de todo o Brasil.

Praia de água doce e pôr do sol na Lagoa dos Patos

A 12 km do centro, a Praia do Laranjal é banhada pela Lagoa dos Patos, a maior laguna do Brasil. No verão, moradores e turistas se reúnem na orla para caminhar pelo calçadão, praticar esportes aquáticos ou simplesmente assistir ao pôr do sol sobre as águas doces. O nome vem de uma plantação de laranja que nunca saiu do papel. Próximo dali, a vila de pescadores do Pontal da Barra serve pastéis de camarão frescos à beira da lagoa.

Quando visitar Pelotas?

O clima é subtropical, com estações bem definidas. O inverno pode ser rigoroso, com mínimas próximas de 5 °C, e o verão quente, ideal para a Praia do Laranjal.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à Princesa do Sul?

Pelotas fica a cerca de 250 km de Porto Alegre pela BR-116, aproximadamente 3 horas de carro. O Aeroporto Internacional João Simões Lopes Neto recebe voos de capitais brasileiras. De ônibus, linhas diretas partem de Porto Alegre, Rio Grande e Santa Maria com frequência diária.

Leia também: No Japão, quem é pobre vive em “favelas” que superam a qualidade e infraestrutura de muitas cidades pelo mundo.

A cidade que tempera história com açúcar

Pelotas é rara entre as cidades gaúchas. Num estado famoso pelo churrasco, ela construiu sua identidade ao redor do doce. Casarões preservados, charqueadas que contam a formação do sul brasileiro e uma laguna que parece mar se encontram num destino que surpreende pela riqueza cultural.

Você precisa caminhar pela Praça Coronel Pedro Osório, provar um camafeu feito com receita de três séculos e entender por que Pelotas é, ao mesmo tempo, a cidade do sal e do açúcar.

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