O primeiro notebook lançado pela Apple foi usado para enviar o primeiro e-mail do espaço (e também foi um fracasso de vendas)

Neste momento, o produto mais comentado da Apple é o MacBook Neo, opção que é o notebook com o menor preço que empresa já adotou. Mas antes do Neo, antes de qualquer MacBook, a Apple já havia tentado criar um notebook, e o resultado foi tão ambicioso quanto malsucedido. O aparelho se chamava Macintosh Portable, e chegou ao mercado em 20 de setembro de 1989.

Macintosh Portable: O primeiro notebook da Apple

O Macintosh Portable era vendido por US$ 6.500 na configuração sem disco rígido, ou US$ 6.948 com o HD de 40 MB incluído, o equivalente a aproximadamente US$ 17.000 em valores de hoje, ou algo próximo a R$ 85.000 pela cotação atual. O lançamento aconteceu num evento no Universal Amphitheater, em Los Angeles, que custou US$ 1 milhão e reuniu mais de 5.000 convidados. A máquina era o primeiro computador Macintosh movido a bateria da história, e a Apple queria que isso ficasse claro para todo mundo.

O projeto tinha raízes que remontavam a 1982, quando Steve Jobs pediu à equipe do design Snow White que desenvolvesse um Macintosh portátil. O codinome era Laguna, e a inspiração intelectual vinha do pesquisador Alan Kay, pioneiro no conceito de computação pessoal e portátil. Quem efetivamente tocou o projeto até o lançamento foi Jean-Louis Gassée, que assumiu a divisão de produtos da Apple em 1985 com uma visão clara: nenhuma concessão. O objetivo era um Mac completo, sem versão reduzida do sistema, com tela de 640×480 pixels em matriz ativa, bateria de longa duração e disco rígido interno, tudo isso numa era em que esses componentes ainda não existiam em formato miniaturizado.

Escolhas de impacto

Para chegar à tela, a Apple foi até a Sharp com uma exigência que, à época, beirava o absurdo: no máximo seis pixels mortos seriam tolerados em toda a superfície do painel LCD de 12 polegadas, e a Sharp precisou construir uma linha de produção inteiramente nova para atender à especificação.

A razão para tanta rigidez estava na arquitetura da própria tela: enquanto todos os outros notebooks da época usavam painéis de matriz passiva, que ativavam os pixels pelo cruzamento de linhas horizontais e verticais, gerando bordas borradas e artefatos visuais , o Portable usava matriz ativa, com um transistor dedicado posicionado atrás de cada cristal líquido. No total, eram 256.000 transistores no painel, garantindo pixels precisos, visíveis em praticamente qualquer ângulo e imunes aos problemas típicos das telas da concorrência. Cada pixel tinha peso individual real na imagem final, o que tornava cada ponto morto uma falha concreta, não cosmética.

O protótipo raríssimo

Enquanto o produto final chegava ao mercado em plástico bege, a Apple produziu uma versão de chassi transparente do Macintosh Portable que nunca foi vendida ao público. Tratava-se de um protótipo EVT, a fase de validação de engenharia em que técnicos conferem o encaixe físico dos componentes dentro da carcaça, fabricado em acrílico translúcido para inspeção visual interna e para testes de ventilação que verificavam o fluxo de ar pelo interior da máquina. São conhecidos apenas sete exemplares desse modelo no mundo inteiro, o que os torna algumas das peças mais raras do colecionismo Apple; um deles foi a leilão pela RR Auction em 2025, acompanhado da bateria recarregável original, da fonte e da bolsa de transporte.

Fracasso nas prateleiras, legado na história

O resultado foi um computador com processador Motorola 68000 a 16 MHz, 1 MB de RAM expansível a 9 MB, SuperDrive de 1,4 MB, HD de 40 MB e autonomia de bateria entre 6 e 12 horas. Pesava 7,3 kg, mais de cinco vezes o peso do MacBook Neo, e tinha 10 cm de espessura. O trackball, posicionado à direita do teclado, podia ser removido e substituído por um teclado numérico opcional, uma solução engenhosa que não salvou a ergonomia geral da máquina.

Nos testes da InfoWorld publicados em outubro de 1989, o Macintosh Portable marcou 2 minutos e 25 segundos no benchmark de Excel, contra 4 minutos e 55 segundos do Mac SE padrão, o que representava desempenho duas vezes superior graças ao disco rígido interno. A tela recebeu elogios explícitos da revisão: os críticos Doug e Denise Green escreveram que “usuários de DOS vão invejar claramente como você consegue ler o texto conforme a tela rola”. A nota final foi 7,2 de 10, boa para desempenho e documentação, e “inaceitável” para suporte técnico, porque a Apple simplesmente não tinha estrutura de assistência à altura da máquina que havia construído.

Já a Point Pleasant Register em julho de 1990, apontou um defeito de projeto que resumia bem a contradição do Portable: a alça traseira, que deveria facilitar o transporte, era também o mecanismo de trava da tela, presa por duas finas peças de plástico. Os revendedores orientavam os clientes a nunca erguer a máquina pela alça — porque o plástico simplesmente não aguentava o peso.

Nos testes de desempenho publicados pela Macworld em novembro de 1989, o Macintosh Portable se posicionou consistentemente entre o Mac SE básico e o topo de linha SE/30. No recálculo de planilhas no Excel, marcou 2 minutos e 31 segundos, contra 4 minutos e 41 segundos do SE comum e apenas 31 segundos do SE/30. Em tarefas gráficas no Freehand, completou em 19 minutos e 35 segundos, superando os 25 minutos e 35 segundos do SE. A conclusão dos editores da Macworld foi clara: “performance variada, mas útil”.

A NASA entra em cena

Em 28 de agosto de 1991, enquanto o Macintosh Portable acumulava devoluções nas prateleiras, um exemplar da máquina estava a 300 quilômetros acima da superfície da Terra, a bordo do ônibus espacial Atlantis. Os astronautas da missão STS-43 acabavam de enviar o primeiro e-mail da história enviado do espaço, usando um Macintosh Portable e o AppleLink, serviço de rede privada da Apple criado para conectar a empresa a distribuidores e parceiros antes de a internet existir como a conhecemos hoje.

A mensagem dizia: “Olá, Terra! Saudações da equipe STS-43. Este é o primeiro AppleLink do espaço. Estou me divertindo MUITO, gostaria que vocês estivessem aqui… liguem o cryo e o RCS! Até mais, baby… voltaremos!” O objetivo principal da missão era lançar um satélite de rastreamento de dados da NASA. O Macintosh Portable entrou para a história quase de passagem. O aparelho exigiu pouquíssimas modificações para operar em gravidade zero, sua construção, projetada para sobreviver às viagens dos executivos dos anos 1990, mostrou-se compatível com as exigências da órbita terrestre. Os astronautas testaram o trackball em microgravidade e chegaram a usar um mouse óptico flutuando pela cabine.

Vendas abaixo do esperado, mas um legado interessante

A Apple havia estimado vendas de 50.000 unidades no primeiro ano. Foram 10.000 no primeiro trimestre, e o ritmo não acelerou. Em 1990, sete meses após o lançamento, a empresa cortou o preço em US$ 1.000 numa tentativa de reverter a situação, sem sucesso. 

O Macintosh Portable foi descontinuado em outubro de 1991, com menos de dois anos no mercado, substituído pela linha PowerBook. A tela de matriz ativa que a Sharp desenvolveu especialmente para o Portable, porém, estabeleceu o padrão de qualidade de imagem que os notebooks seguiriam por décadas, prova de que o aparelho errou no produto mas acertou na direção.

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