Fóssil canadense revela um dos primeiros animais herbívoros da Terra

Cientistas desenterraram, na província canadense da Nova Escócia, o crânio de uma criatura que viveu há cerca de 307 milhões de anos. O animal é considerado um dos vertebrados terrestres herbívoros mais antigos já conhecidos e representa um momento crucial na evolução da vida animal em terra firme.

A criatura, chamada Tyrannoroter heberti, possuía um crânio de formato levemente triangular, que permitia o desenvolvimento de grandes músculos nas bochechas, essenciais para a ingestão de material vegetal resistente. A boca era repleta de dentes especializados em esmagar, triturar e moer a vegetação.

Apesar da aparência semelhante à de um réptil, o Tyrannoroter não pertence a essa classe. Ele é classificado como parte de um grupo extinto conhecido como microssauros. Embora os pesquisadores tenham encontrado apenas o crânio, estimativas com base em espécies relacionadas indicam que o animal media cerca de 30,5 centímetros de comprimento e tinha uma constituição robusta, semelhante à do atual lagarto-de-língua-azul.

O animal viveu durante o período Carbonífero e estava entre os primeiros integrantes de uma ampla linhagem de vertebrados terrestres quadrúpedes chamados tetrápodes, ancestrais de anfíbios, répteis, mamíferos e aves modernos.

Esses tetrápodes evoluíram a partir de peixes com nadadeiras carnudas semelhantes a membros, que se tornaram os primeiros vertebrados — animais com coluna vertebral — a ocupar o ambiente terrestre. Os fósseis mais antigos de esqueletos de tetrápodes datam de cerca de 375 milhões de anos.

Os primeiros tetrápodes eram carnívoros. Com o tempo, alguns passaram a se alimentar de insetos e, posteriormente, como ilustra o Tyrannoroter, começaram a incluir plantas na dieta.

“Isso é extremamente importante porque significa que os componentes essenciais dos ecossistemas terrestres que reconhecemos hoje — dominados por herbívoros — já existiam e se mantêm desde o período Carbonífero”, afirmou o paleontólogo Arjan Mann, do Field Museum, em Chicago, coautor principal do estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution.

Outro animal da mesma época, chamado Melanedaphodon, cujos fósseis foram encontrados em Ohio (EUA), é interpretado como consumidor de plantas mais macias, além de insetos. O Tyrannoroter também pode ter se alimentado de insetos, mas seu crânio era mais adaptado para processar vegetação resistente.

“O Tyrannoroter é o vertebrado terrestre herbívoro mais antigo e completo conhecido com adaptações capazes de processar material vegetal rico em fibras”, disse Mann.

Durante o Carbonífero, extensas e exuberantes florestas — cujos restos fossilizados formam hoje grande parte das reservas de carvão do mundo — dominavam a paisagem. Nesse contexto, a abundância de matéria vegetal pode ter impulsionado a mudança alimentar dos tetrápodes.

“Basicamente, a questão era: ‘Como obter energia de diferentes tipos de alimentos?’ A grande quantidade de vegetação nas florestas semelhantes a manguezais do Carbonífero foi uma solução oportuna”, explicou Mann.

O crânio do Tyrannoroter tinha cerca de 10 cm de comprimento

O crânio do Tyrannoroter media cerca de 10 centímetros e apresentava estrutura extremamente robusta, segundo a paleontóloga Hillary Maddin, da Universidade Carleton, no Canadá, autora principal do estudo.

“As características que indicam herbivoria incluem o focinho voltado para baixo, ideal para cortar plantas rasteiras, grandes câmaras para abrigar músculos poderosos e, principalmente, campos dentários opostos — um no palato e outro na mandíbula inferior — que se encaixavam. Essas ‘baterias dentárias’ são comuns em outros animais herbívoros”, detalhou.

Para analisar o interior do fóssil, os pesquisadores utilizaram tomografia computadorizada e identificaram dezenas de dentes cônicos no céu da boca.

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O nome do gênero Tyrannoroter significa “tirano escavador”, referência ao seu porte relativamente grande para a época e à hipótese de que fosse um animal escavador. O nome da espécie, heberti, homenageia o pesquisador Brian Hebert, que encontrou o crânio em um penhasco na Ilha do Cabo Bretão, na costa atlântica da Nova Escócia.

Durante muito tempo, acreditava-se que os primeiros vertebrados herbívoros verdadeiros só surgiram no final do Carbonífero, encerrado há cerca de 299 milhões de anos.

“Essa descoberta mostra que os vertebrados ocuparam nichos ecológicos semelhantes aos atuais, incluindo a herbivoria, muito mais rapidamente do que imaginávamos”, disse Maddin.

Segundo os pesquisadores, a insetivoria pode ter sido um passo intermediário importante antes da adoção da dieta vegetal.

“O estudo reforça a ideia de que a alimentação à base de insetos provavelmente foi uma pré-adaptação para a herbivoria. Ao consumir insetos herbívoros primitivos, os tetrápodes podem ter adquirido, de forma indireta, a flora intestinal necessária para processar plantas”, concluiu Mann.

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