Depois de atravessar um período de estresse, o crédito do agronegócio volta a ganhar tração no mercado de capitais neste começo de 2026. Em 2025, as emissões de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) atingiram um patamar recorde de R$ 46,2 bilhões, alta de 11,1% em relação ao ano anterior. Já as ofertas de Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais) somaram R$ 6,4 bilhões, crescimento de 31,3%.
Com captação líquida positiva de R$ 9,1 bilhões e patrimônio de R$ 21,6 bilhões ao fim do ano, os Fiagros entram em 2026 com estruturas mais robustas, crédito mais pulverizado e maior seletividade, abrindo espaço para um novo ciclo de crescimento do financiamento do agro.
O pano de fundo desse movimento é um mercado de capitais mais ativo. As ofertas somaram R$ 838,8 bilhões em 2025, avanço de 6,4%, e colocam o agronegócio em posição estratégica justamente no momento em que o crédito público perde espaço e o BNDES reduz sua participação em financiamentos de longo prazo. É nesse contexto que 2026 se consolida como um ano-chave para o financiamento privado do campo.
Indústria mais madura
Criados em 2022, os Fiagros ainda são considerados um instrumento jovem pelo investidor brasileiro. Ainda assim, chegam a 2026 após atravessar um ciclo acelerado de aprendizado. “Até 2012 praticamente ninguém atuava no agro. Era um setor estranho para o mercado financeiro”, afirma David Marco Telio, sócio da Terra Magna, com 38 anos de experiência em gestão de risco.
Segundo ele, apesar de a lei do CRA ter sido aprovada em 2004, o primeiro título público só foi emitido oito anos depois. “Levou mais de uma década para o CRA alcançar cerca de R$ 40 bilhões em estoque. Já o Fiagro, em dois anos e meio, bateu R$ 47 bilhões. Isso mostra a velocidade com que o mercado de capitais aderiu ao agro.”
Flávia Palacios, superintendente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) acrescenta: “é um produto recente, mas que já nasceu mais estruturado, inspirado nos fundos imobiliários. O problema é que ele ainda nem tinha ganhado corpo quando enfrentou duas crises quase seguidas”.
A primeira crise veio do próprio campo, com eventos climáticos que afetaram a produção. A segunda foi uma crise de crédito, com recuperações judiciais e decisões extrajudiciais que atingiram empresas da cadeia.
“O agro é economia real. É um produto novo, com uma indústria ainda aprendendo a lidar com ele. Vieram contratempos que são esperados e cíclicos, mas que, no começo da indústria, causaram uma chacoalhada”, diz Flávia.
Teste de estresse
A volatilidade estrutural do agro ficou mais evidente nos últimos anos. A elevação dos custos de produção após a invasão da Ucrânia pela Rússia, somada a eventos climáticos e à oscilação das commodities, pressionou margens e expôs fragilidades em parte da cadeia produtiva.
Casos como a recuperação judicial da rede de revendas Agrogalaxy, no segundo semestre de 2024, funcionaram como catalisadores desse estresse e ampliaram a volatilidade das cotas de Fiagros, inclusive daqueles sem exposição direta ao caso.
“Até 2022, todo mundo nadou de braçada. Quem tomava recursos operava, quem investia ganhava. A inadimplência trouxe um sabor amargo que o mercado ainda não tinha experimentado no setor”, afirma Telio. Para ele, diferentemente de episódios pontuais no passado, os últimos anos tiveram impacto relevante, com a entrada de recuperações judiciais no radar dos investidores.
“Alguns fundos caíram mesmo sem ter nada relacionado à Agrogalaxy. Foi contágio. Mas fundos com boa estrutura caíram cerca de 10% e já estão acima do patamar anterior”, acrescenta Vitor Duarte, CIO da Suno Asset, gestora de dois Fiagros listados.
Para a Anbima, o choque foi amplificado pelo perfil do produto. “É um fundo listado em bolsa, mas ligado a ciclos naturais. Isso foi um choque para a indústria”, explica Flávia.Segundo ela, havia gestores com estruturas qualificadas que defendiam cautela, mas o comportamento do investidor pessoa física foi determinante. “Com medo, saíram quase em massa dos fundos”, afirma.
Além dos episódios específicos do agro, fatores macroeconômicos também pesaram. A alta da taxa de juros e o ambiente de maior aversão a risco afetaram todo o mercado de capitais, não apenas os instrumentos ligados ao campo.
A indústria não encolheu
Apesar do cenário adverso, os números mostram que a indústria chegou a 2026 maior do que entrou no período de crise. A captação líquida positiva em 2025, a entrada de novos gestores e o crescimento do patrimônio sinalizam resiliência.
“Quando olhamos o copo meio cheio, vemos uma indústria que cresceu. Ela não caiu. Houve captação líquida positiva, novos players e mais gestores entrando. Isso demonstra que o produto está certo”, afirma Flávia.
Segundo Telio, o período de estresse funcionou como um freio necessário. “Quando converso com as casas, todas chamam esse momento de um freio de atuação. Hoje elas entendem melhor os riscos do setor, prestam mais atenção às estruturas e selecionam melhor os papéis”, diz. Ainda assim, o investidor segue no agro. “Asset management e family offices não querem sair do setor. São eles que continuam colocando papel no mercado.”
Segundo a Anbima, os problemas de crédito observados no ciclo anterior não foram estruturais. “Muitas operações seguem adimplentes e continuam captando”, reforça a executiva.
Para gestores, o período foi um teste necessário para um produto que agora entra em uma nova fase. “O agro é um setor estruturalmente volátil. Existe volatilidade de custos, de clima, de produção e de preço da commodity. Isso não vai acabar. O que muda é como o crédito é estruturado para conviver com esse risco”, afirma Vitor Duarte.
Menos concentração, mais disciplina
Uma das principais lições levadas para 2026 foi a necessidade de pulverização do risco. Parte dos problemas recentes esteve ligada à concentração de crédito, especialmente em operações com revendas.
“Revendas com crédito concentrado mostraram o problema. Fundos mais pulverizados quase não sofreram”, lembra Flávia.No caso dos CRAs, a concentração é ainda mais sensível. “Um CRA com um único crédito que entra em inadimplência vira inadimplência de 100%.”
Essa experiência acelerou a transição do mercado para carteiras mais diversificadas e estatísticas — movimento que o agro já vinha fazendo nos últimos cinco anos e que agora ganha escala.
Do lado de quem toma recursos, a mudança também é visível. “Produtores, cooperativas e indústrias estão se organizando melhor em governança, estruturando o negócio para levar ao mercado algo que transmita confiança”, afirma Telio, da Terra Magna. Segundo ele, as margens estão mais apertadas em toda a cadeia, com custos elevados de produção, juros altos e pressão sobre revendas e indústrias, o que reforça a necessidade de estruturas mais sólidas.
Regulação mais moderna
O arcabouço regulatório do Fiagro é visto como um dos pilares dessa nova fase. A regulamentação da CVM permite que um único fundo tenha diferentes subcategorias, como CRA, FIDC e ativos imobiliários ou de terras. “Esse update regulatório tem caráter de modernização e dá mais discricionariedade ao gestor”, afirma Flávia.
Na prática, porém, o uso pleno desse potencial ainda está em estágio inicial, algo que deve avançar ao longo de 2026. “Estamos começando agora. Ainda vemos os fundos usando pouco esse potencial. Os FIDCs aparecem mais porque são mais fáceis de o investidor entender”, explica.
Outro ponto central para o novo ciclo é a educação. A Anbima prepara uma cartilha voltada ao produtor rural, com padronização de dados e orientações para acesso ao mercado de capitais.“O mercado de capitais está aprendendo a olhar o produtor rural, que muitas vezes atua como pessoa física”, afirma a executiva da Anbima.
Do lado do investidor, a compreensão sobre o funcionamento do Fiagro também evolui. O produto nasceu espelhado nos fundos imobiliários, mas a lógica de fluxo é diferente. “No agro, o fluxo vem quando vende a produção. Não é aluguel”, diz Flávia.
Mesmo os Fiagros imobiliários ligados ao agro não seguem a lógica de renda mensal. Segundo ela, o investidor profissional já entende essa dinâmica, mas a pessoa física ainda está assimilando. “As duas pontas precisam aprender. O produtor precisa entender novas fontes de financiamento, e o investidor precisa entender o ciclo do agro”, resume.
CRA em ajuste
O mercado de CRA passa por ajustes regulatórios após a Resolução 5.128, que reduziu os lastros elegíveis para as operações, eliminando estruturas baseadas em reembolso. Apesar disso, as emissões cresceram em 2025 e atingiram patamar recorde.
A avaliação do mercado é que o CRA segue relevante, mas o Fiagro tende a ocupar papel cada vez mais central no novo ciclo do crédito do agro.
Depois de um período praticamente sem novas ofertas, o mercado deve voltar a ver follow-ons de Fiagros ao longo de 2026. A expectativa é que a recuperação das margens do setor no ciclo 2025/26 abra espaço para crescimento patrimonial e novas captações.
“Desde 2024 praticamente não houve ofertas subsequentes. Agora, a expectativa é de retomada. 2026 deve ser o ano da volta do crescimento”, diz Vitor Duarte.
Esse movimento ocorre em um contexto em que o crédito público perdeu espaço e o BNDES reduziu sua atuação em financiamentos de longo prazo. “O Fiagro vem para ocupar esse espaço. Não só no agro, mas como fonte de crédito de longo prazo para o país”, conclui o gestor.

